segunda-feira, 18 de julho de 2011

O triste fim da Rede Tupi de Televisão - 18 de julho de 1980

Jornal/Revista: Jornal do Brasil
Data de Publicação: 01/02/1980

Na Tupi, há crise também no Rio de Janeiro

O prédio pintado de azul e branco, mostra o mesmo jeito de abandono e descaso na praia onde estão instalados os prédios da administração e o auditório da Tv Tupi do Rio de Janeiro canal 6, no Cassino da Urca. Enquanto quatro senhores jogam tranqüilamente o seu carteado em uma mesa da praia. O jogo do bicho também é bastante procurado pelos funcionários da emissora, em busca de um dinheiro que certamente chegará atrasado este mês, devido a mais uma grave crise financeira na Rede Tupi de Televisão. Na emissora do Rio, trabalham, entre técnicos, jornalistas, e funcionários diversos, 450 pessoas, muitas também com três meses de atraso em seus pagamentos, porque recebem pela folha de pagamento da Tv Tupi São Paulo. No departamento de jornalismo há alguns repórteres com os salários em atraso. Na produção do Programa Flávio Cavalcanti também. E muitos funcionários vêem-se obrigados a viver de vales, recebendo apenas a metade da quantia pedida. Apenas o jornalístico ‘’Abertura’’, apresentado aos domingos, vive de verba própria, usando apenas a técnica da Tupi, pois é produzido pela firma Teorema e pela agência de propaganda Esquire. O programa líder de audiência da emissora, ‘’Aqui e Agora’’, também vive do patrocínio de um grupo argentino, que fazia este mesmo tipo de programa em Buenos Aires. As novelas, e os shows, produzidos nos estúdios de São Paulo, estão com sua produção interrompida e, por isso os espectadores que ainda resistem ao Canal 6 carioca, têm que se contentar com as reprises dos primeiros capítulos do ‘’Drácula uma história de amor’’ e de um final abrupto para ‘’Como Salvar meu Casamento’’ que, pelo menos em São Paulo, vinha tendo uma boa aceitação de crítica e de público. Com a greve, as novelas vem sendo editadas no Rio. Em razão disso, a duração dos capítulos vem diminuindo, único modo de esticar o tempo das novelas no ar. De qualquer maneira, a Tupi pretende estrear, ainda neste mês, dois novos programas. Um deles, Conversa de Botequim. de João Roberto Kelly, misto de musical e jornalismo, devera estrear na próxima quarta-feira ou então no dia 20, pois ainda se encontra em fase de estudos finais. O outro programa, ‘’Apertura’’, é um humorístico bem ao estilo da casa, pois trará de volta todos os velhos comediantes como Ary Leite, Nadia Maria, Tutuca, Geraldo Alves, Roberto Roney e Roni Rios, com estréia marcada para o próximo dia 26, indo ao ar às terças-feiras, às 21hs.

Jornal/Revista: Jornal do Brasil
Data de Publicação: 01/02/1980

A televisão nas mãos do povo

Manhã de quinta-feira, 17 de julho de 1980, no Cassino da Urca, sede da Tupi carioca. Titos Belline, superintendente de programação da TV e um dos funcionários, procurou José Arrabal, diretor da empresa pedindo permissão para que os funcionários colocassem no ar, um apelo contra o fechamento da emissora. Arrabal concordou que o apelo fosse feito no programa ‘’Aqui, agora’’. Mas, assim que o programa começou, o diretor tirou-o do ar , pondo em seu lugar um anúncio. Quase houve um conflito dentro do Cassino da Urca. Pressionado, José Arrabal resolveu ir para casa, e a emissora ficou na mão dos funcionários. Eram três da tarde. Os trezentos funcionários reuniram-se no palco do estúdio e começaram a transmitir seus protestos para todo o Rio de Janeiro. Carlos Lima e Jorge Perlingeiro, um dos apresentadores que comandavam seu próprio espaço na programação da emissora, lideravam os funcionários. Começava uma vigília que os funcionários pretendiam manter até que o Dentel determinasse a lacração dos transmissores. As três câmeras da Tupi carioca foram oferecidas para quem quisesse registrar seu protesto. O primeiro telespectador a manifestar-se foi Antonio Cassua, 62 anos, aposentado. Ele propôs ao povo que comprasse ações da Tupi para ajudar os funcionários. “Perguntei à minha mulher se ela compraria uma ação da Tupi por mil cruzeiros, ela disse que sim. Perguntei ao vizinho, ao quitandeiro e todos disseram que sim. Então resolvi trazer aqui a minha idéia.” Vários artistas foram à Urca prestar solidariedade. Jô Soares acompanhado da belíssima Silvia Bandeira passou por lá, Juca Chaves propôs que a concessão do canal fosse dada aos artistas. O comediante Costinha foi fazer uma saudação e um apelo ao presidente: : “Sr. João Goulart...”, começou ele. Depois garantiu que não foi piada. Fora erro mesmo. O velho ‘’Capitão Asa’’ ressurgiu das cinzas, pedindo às “crianças” que o assistiam há vinte anos, que apoiassem o pessoal da Tv Tupi. Um antigo fã subiu ao palco e começou a chorar. Aproximou-se do microfone e sussurrou: “Eu amo a Tupi”. Às onze e meia da noite da quinta-feira, Carlos Lima manteve uma conversa telefônica no ar, com o ministro das Comunicações, Haroldo Correa de Mattos. Um trecho do diálogo:

Lima: A TV amanhã sairá do ar?
Mattos: Qual a solução que você oferece?
Lima: A passagem do controle da emissora para os funcionários.
Mattos: Não posso oferecer nada. É preciso dar tempo ao tempo.

Logo depois, uma ligação inesperada que também foi ao ar. O jornalista Milton Coelho da Graça ligou de ‘‘O Globo’’ para ler um telex que seria publicado no dia seguinte. Era uma entrevista com o ministro da Comunicação Social, Said Farhat, em que ele admitia a hipótese de estudar a concessão do canal, a titulo precaríssimo, aos funcionários, depois de lacrados os transmissores, enquanto a solução definitiva não viesse. Milton explicou que telefonaria a pedido do próprio Roberto Marinho, proprietário de ‘’O Globo e da TV Globo’’. Palmas e mais palmas para Marinho. No ar, na Tupi. O desfile de artistas continuava. Clóvis Bornay, Ney Latorraca, Jerry Adriani passaram pelo palco da Urca. Quanto aos apelos para que o presidente Figueiredo desistisse de declarar a perempção (expressão jurídica que significa extinto por prescrição) da emissora. Improvisava-se; Carlos Lima leu texto enquanto eram projetadas imagens da visita do papa João Paulo ll. Fernando Chateaubriand, filho do velho senador, lançava apelos patéticos ao presidente: “Em nome da amizade que unia os nossos pais, peço que entregue as estações aos funcionários para que eles façam a segunda maior rede do país”.

Preces e apelos

Gilberto Marinho, que representava o falcão Negro na Tupi carioca – em São Paulo o papel era feito por José Parisi -, fazia discursos inflamados. “Estou consternado com a situação dos funcionários, vitimas da irresponsabilidade e da desonestidade dos condôminos”, clamava ele. De vez em quando, um anuncio ia para o ar. Ou então um cameraman focalizava algum colega que chorava descontroladamente. Um pastor protestante puxou uma oração e foi aplaudido. À meia noite todos rezaram de mãos dadas. Uma rede de radioamadores cariocas começou a transmitir para Brasília sugestões para que o governo revisse sua decisão. Horas antes, até um ajudante de ordens do presidente da republica telefonou. Era o capitão Getúlio. Ele ouviu o apelo de Carlos Lima para que interferisse junto ao presidente. Infelizmente Figueiredo estava em reunião e não pode ser incomodado. Apesar das conversas oficiais, tratava-se, sem duvida, de um raro momento em que o povo estava com uma estação de televisão ao alcance de suas mãos. Vivia-se, apesar de tudo, um clima bem diferente do de São Paulo. Em São Paulo, os funcionários que estavam em greve e os que insistiram em permanecer trabalhando criaram um divisor de águas difícil de ser superado. Embora tinha havido manifestações de boa vontade entre as partes, depois que a emissora paulista foi tirada do ar, pelos próprios funcionários, os grevistas de última hora relutaram em comparecer às assembléias no sindicato dos radialistas, e ainda consideravam perigosa a decisão de tirar a emissora do ar. A começar pelos diretores como o ex-galã Walter Foster, sobre os quais os grevistas concentravam toda a sua ira. Eles, ao que tudo indica, ficariam de fora do empréstimo de 40 milhões concedido pela Caixa Econômica Federal, que provavelmente começará a ser distribuído a partir desta terça-feira, 22 de julho de 1980.

Aluízio Maranhão
Revista Istoé 23/7/1980


Jornal do Brasil - 19/7/1980

DENTEL LACRA 7 EMISSORAS DE TV DAS EMISSORAS ASSOCIADAS

Brasília - Ontem às 8h30m, o diretor-geral do Departamento Nacional de Telecomunicações - Dentel, Coronel Antônio Fernandes Neiva, ao receber o Diário Oficial da União que publicou os atos do Presidente da República, considerando peremptas – (extinto por prescrição) - as concessões de sete emissoras de televisão do Grupo Associado, expediu, via telex, ordem para os diretores regionais do órgão, onde se localizam essas televisões, para interromper imediatamente as transmissões e, conseqüentemente, o lacre de seus transmissores. No começo da tarde, todas as sete emissoras estavam com seus transmissores lacrados. A TV Tupi, do Rio de Janeiro, foi última emissora, a ser lacrada, às 12h36m e TV Marajoara, de Belém, a primeira, às 9h20m. O diretor-geral do Dentel informou que durante o processo do lacre não louve qualquer incidente, apesar do clima de emoção que a medida provocou. Disse que recomendou ao pessoal encarregado de executar essa missão que evitasse qualquer tipo de confronto, que usassem de máxima cautela e de civilidade para evitar qualquer choque com os funcionários.

SÃO PAULO

Os transmissores da TV Tupi, canal 4 de São Paulo, foram lacrados ontem de manhã, pelo Dentel, cumprindo decreto assinado pelo Presidente Figueiredo e formalizando o fim de emissora que foi a pioneira no Brasil e durou 30 anos. "Joguei flores quando foi inaugurada. Agora, jogo a pá de cal" disse o diretor da ‘’S.A. Rádio Tupã’, Sr Mauro Gonçalves. Ele recebeu das mãos do agente fiscalizador do Dentel, Sr Carlos Alberto Almeida Campos, três cristais, peças fundamentais dos transmissores, e assinou termo de interrupção. Cerca de 40 funcionários assistiram ao ato de lacração, no 10º andar do prédio do Sumaré; alguns procuravam os cantos para esconder as lágrimas. O superintendente administrativo, Sr Wilson considerou o desfecho da TV Tupi "natural pelo comportamento da direção da empresa, mas extremamente chocante para quem foi dela funcionário".

A LACRAÇÃO - O ato de lacração foi rápido e, após a retirada dos cristais, agentes do Dentel, funcionários e diretores da TV Tupi reuniram-se no 9º andar, para assinatura do termo de interrupção, em papel timbrado do Dentel - a diretoria regional de São Paulo, que levou o número 1/80. O documento diz que os transmissores não poderão ser deslacrados a não ser por autorização daquele órgão. O diretor da ‘’S.A. Rádio Tupã’, Sr Mário Gonçalves, 62 anos e 45 de trabalho nos Diários Associados, ficou  como depositário dos cristais, colocou as peças em um cofre. "Só recebo honrarias", disse ele - "em meus 45 anos de empresa, a proteção foi meu esforço, algumas vezes reconhecido, outras desprezado. Tenho meu trabalho e meus filhos e luto com dificuldade. Mas sou católico, creio na ressurreição de Cristo e por isso também num milagre para que a emissora renasça.”

POTÊNCIA - A TV Tupi ocupava cinco dos 10 andares do prédio no Sumaré, onde continuam funcionando as rádios Tupi AM 1040 Khz, Difusora AM 960 Khz e Difusora FM 98,5 Mhz. A torre que sustentaria a nova antena da TV Tupi de 50 KW de potência, estava em fase de acabamento; seria a maior torre de tv e a maior potencia da América do Sul.


Parte 3 – BELÉM

A TV Marajoara nem chegou a entrar no ar ontem: antes das 10h, quando um funcionário do Dentel chegou à emissora para lacrar seus transmissores, já encontrou a emissora sem funcionar. Roberto Jares Martins, seu diretor, tinha certeza que a portaria do Ministério das Comunicações, declarando a perempção da concessão do Canal 2 seria publicada no Diário Oficial de ontem e por isso ordenou que o canal não gerasse sua programação pela manhã, até que o Dentel definisse a situação. A emissora saíra do ar aos 17 minutos de terça-feira, exibindo o filme, ”Tempos Difíceis”. E não retornou mais.


BELO HORIZONTE

A direção dos Diários e Emissoras Associados em Minas, ainda não decidiu o que fará com os 300 funcionários da TV Itacolomi, que ontem não chegou a entrar no ar. Por enquanto, nenhuma demissão foi anunciada e, ontem, em nova nota, o Sindicato dos Jornalistas de Minas exigiu que o Governo se responsabilize pelo reaproveitamento dos 300 demitidos. A decisão dos Associados sobre os funcionários só deve ser anunciada segunda-feira e, se demitidos, os optantes pela CLT serão indenizados pela própria empresa, cabendo ao Governo pagar aos demais. A nota do Sindicato dos Jornalistas diz que "o Governo deve ser responsabilizado pelo destino dos empregados da TV, promovendo o reaproveitamento de todos pela nova concessionária, ou então pelas empresas estatais.”

DESOLAÇÃO - Ontem, após a retirada da emissora do ar, às 10h27m, quando representantes do Dentel desligaram os dois cristais dos transmissores da Itacolomi, na Serra do Curral, o clima entre os funcionários, que já em de completa tristeza, chegou à desolação. A emissora não chegou a ir ao ar e foi retirada do ar pelo Dentel quando restavam no vídeo o padrão de cores que antecede a programação. Apesar disto, às 12 horas, repórteres da Itacolomi tentavam ouvir do Governador Francelino Pereira opinião sobre o ato do Governo Federal. A operação de retirada do ar e lacre nos transmissores foi executada sob ordens do diretor do Dentel em Minas, Coronel Fleury, e amparada por um batalhão de choque da PM, que se deslocou até o prédio central da emissora. Durante todo o dia, uma guarnição da radiopatrulha permaneceu em frente ao local. O Sr Francelino Pereira disse estar atento ao problema e lamentou a decisão do Governo Federal, que, afirmou, "ninguém esperava, tendo em vista seus relatórios e a boa situação financeira da TV Itacolomi".


RECIFE

Diante de 160 angustiados empregados da TV Rádio Clube de Pernambuco, três funcionários do Dentel, à frente a Sra Ana Maria Belfort, lacraram ontem pela manhã, as 10h50m, os transmissores da emissora, uma das sete da Rede Tupi, cujas concessões foram cassadas pelo Governo. Mesmo avisados de que não poderiam filmar as derradeiras cenas da emissora, ainda chegou-se a transmitir para quatro Estados nordestinos - Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas - o pânico em que se transformou a televisão pouco momentos antes do lacre. O locutor Osório Romero, improvisado na função e um dos editores de jornalismo da emissora, ainda pôde chegar até a alguns metros dos transmissores com microfone à mão, para narrar o epílogo da TV Rádio Clube do Recife canal 6. Ele conseguiu dizer para os telespectadores, mostrando a angústia dos 160 funcionários da emissora - três minutos antes da retirada do cristal dos transmissores que era um grande momento para todos, "de expectativa, angústia, de sofrimento e de um misto de pânico e desespero". Afirmou, também, que "a nossa única dúvida é com referência a nossa sorte daqui para frente. As nossas esposas, nossos filhos, nossos familiares encontram-se numa tensão emocional incontrolável. Nesta oportunidade, fazemos um apelo ao Excelentíssimo Sr Presidente da República para olhar por nós. Aos nossos telespectadores, o nosso agradecimento pela audiência, nossa gratidão pela solidariedade". Alguns funcionários chegaram a chorar. Todos estavam bastante comovidos e mostraram que estavam solidários uns com os outros. O cinegrafista Inaldo Lins, 37 anos, fundador da TV Rádio Clube, com 20 anos de empresa, não se conteve: "Estou aqui desde os 17 anos de idade. Comecei como laboratorista. e considerava esta empresa como minha casa, pois foi aqui que vivia mais, muito mais que com a família. Não encontro uma maneira de me consolar." Próximo o astrólogo Gilvan previa: "Dentro de 30 dias voltaremos ao ar". Como?, ele não sabia dizer.


FORTALEZA

 “Afinal chegou o momento". E em seguida a imagem do Canal 2 desapareceu do ar. Era uma equipe do Dentel, delegacia regional, que chegou às 11h19m e começou a lacrar os transmissores da estação quando estava diante das câmeras o animador de auditório, Augusto Borges. Ele ainda lia mensagens de pessoas que faziam apelos ao Presidente da República para que revogasse a medida de cassação dos canais da Rede Tupi. Um dos últimos a falar foi o cantor Fagner, que nasceu artisticamente no Canal 2, em seus programas de auditório, na década de 1970. "Isso tudo faz parte de um complô contra a criatividade brasileira. Eu estou pasmado e até chorando", disse Fagner, em uma fala que durou oito minutos, acrescentando que esta "emissora fala coisas que não são padronizadas. Eu nasci aqui. A gente deve brigar por isso. Espero que retomemos brevemente" e deu um abraço em Augusto Borges que acabaram por chorar convulsivamente. Fagner citou Belchior, Ednardo, Petrúcio Maia, Teti, Rodger e muitos outros artistas que brilham pelo Brasil como "crias" da TV Ceará, Canal 2. Na missa celebrada em um altar humilde apenas enfeitado por uma cruz branca de isopor, o Bispo-auxiliar de Fortaleza, Dom Raimundo de Castro e Silva disse que "vamos rezar para que Nossa Senhora de Assunção ilumine o nosso Presidente no sentido, de que ele encontre outro meio para salvar o trabalho de vocês. A Arquidiocese muito deve ao Canal 2 e aos seus integrantes. É aqui, que há muitos anos é rezada a Missa dominical para os doentes.” ·

PORTO ALEGRE

Às 11h55M de ontem, a TV Piratini, Canal 5, interrompeu suas transmissões, saindo do ar depois de 21 anos de trabalho. Enquanto era transmitido um desenho animado dos criadores norte-americanos Hanna e Barbera, um Volkswagen do Dentel subia a rampa da televisão conduzindo três técnicos do órgão com ordem para lacrar os transmissores do Canal 5. Como estava na hora do almoço, alguns funcionários encontravam-se do lado de fora do prédio da emissora, ou na lanchonete, mas esquivaram-se da imprensa, alegando que não sabiam de nada. Poucos foram os que manifestaram sua tristeza pelo fechamento do canal e a esperança de que seu emprego fosse garantido pelo cumprimento da promessa do superintendente regional Associado, Estácio Ramos, de transformar a TV numa Central Produtora de Comerciais.

POLICIAMENTO - Desde as 6h um Fiat do 1º Batalhão da Brigada Militar guardava a entrada da TV Piratini, "cumprindo ordens" como disse um dos PMS, acrescentando que a ordem era ficar até que a televisão fosse fechada. Às 11h, chegava outra viatura e uma hora depois uma terceira. As 11h25m, quando o carro do Dentel chegou à TV Piratini, três carros da Brigada Militar policiavam a área, retirando-se logo após a saída do Volkswagen do Dentel. Após o lacre dos transmissores a diretoria da TV Piratini se esquivou de contatos com a imprensa, e entrar na emissora era impossível uma vez que a porta de entrada é controlada por mecanismo eletrônico. O superintendente, regional dos Diários Associados, Sr Estácio Ramos, não fez nenhum comunicado sobre o fechamento da TV Piratini e manteve reuniões durante todo o dia, conforme sua secretária. Eram 10h45m quando o JORNAL DO BRASIL tentou um contato com o Sr Estácio Ramos. Sua secretária informou que ele estava em reunião mas que "estamos todos bem, todos tranqüilos, porque o impacto da notícia já passou e ninguém será prejudicado". As 11h55m, quando a imagem da TV Piratini saiu do ar, a mesma secretaria dizia não saber de nada, que talvez fosse conseqüência de um problema técnico. Os 140 funcionários da TV Piratini continuaram, ontem, depois de lacrados os transmissores, batendo ponto de entrada e saída, e em seus departamentos esperavam a decisão da emissora sobre o destino que seria dado a cada um. Abordados sobre o que estavam fazendo na emissora, os funcionários insistiam em, responder que estavam trabalhando "internamente", enquanto outros, admitiam estarem "olhando um pra cara do outro".


Por fim, RIO de JANEIRO

Eram 12h36m quando Wilson Gomes de Faria, fiscal do Dentel, se curvou sem cerimônia diante do painel cheio de visores e botões eletrônicos, puxou uma espécie de gavetinha metálica e, como quem cumpre tarefa de rotina, retirou calmamente, de dentro dela, um minúsculo cristal. Era o fim. Depois de quase 30 anos de atividade e com a transmissão derradeira do seu logotipo, saia do ar a Tv Tupi do Rio. Na fria sala do prédio de transmissão que o outrora todo-poderoso canal 6 de televisão montara no Alto do Sumaré, tudo era melancolia mas ninguém chorou. Durval Cardoso Filho, técnico de manutenção há nove anos da Tupi e que recebeu, dos funcionários do Dentel o termo de lacração dos transmissores, olhou em frente depois de assinar as quatro vias com a mão esquerda e disse sem muita convicção: "É chato, mas a vida continua". Momentos antes, no principal estúdio da Urca, cerca de 200 funcionários, muitos deles chorando, olhavam as últimas imagens da emissora: o Papa João Paulo ll rezando a missa do Parque do Flamengo. Ao fundo, a voz do locutor Cévio Cordeiro, apelando "ao outro João", o Presidente da República, para que "olhasse os funcionários desempregados".

A SAÍDA DO AR - O ritual da retirada do ar da TV Tupi do Rio, obedeceu às regras legais. Uma veraneio e uma Brasília subiram ao Alto do Sumaré levando quatro funcionários qualificados do Dentel (Departamento Nacional de Telecomunicações): Hercílio de SantAnna (assistente jurídico), Sebastião Antônio da Silva Sobrinho (engenheiro-chefe de Seção de Fiscalização), Nilton da Silva Rosa e Wilson Gomes de Faria, agentes fiscais. O Sr Hercílio que, ao despedir-se, pediria desculpas por "qualquer coisa" sobe a pequena rampa que dá para a sala onde Luís Fernando e Durval Cardoso exerciam ainda a funções de técnicos de manutenção. Logo entrega a Durval o ofício nº 750, destinado ao diretor-superintendente da Sociedade Anônima Rádio Tupi (sem nome) e assinado pelo diretor-regional do Dentel/Rio, Sr Aroldo de Oliveira, pelo qual são apresentados os quatro enviados do Dentel, encarregados que estavam de proceder à "lacração dos transmissores e atos complementares." O Sr Mílton Rosa não deixou de comentar: "Quem devia estar presente para receber o documento era um representante categorizado do Condomínio dos Diários Associados". Os fiscais entraram e passaram a executar a tarefa de que foram incumbidos conforme o termo de lacração em quatro vias: "Lacrei os transmissores da seguinte maneira: retirando o excitador e colocando em curto os soquetes das câmaras térmicas dos cristais do transmissor principal." No rodapé do documento, mais uma informação: "Transmissores lacrados de acordo com o telex nº 359/DG/Dentel, de 18/07/80, cumprindo o Decreto 84928/80, que tornou perempta a concessão para execução do Serviço de Radiodifusão de Som e Imagem da S/A Rádio Tupi-Canal 6". O documento foi assinado pelos quatro representantes do Dentel, e Durval Cardoso Filho, pela Tupi, e mais duas testemunhas: Fernando Jatobá Valença e outro de nome indecifrável. Antes de executarem a determinação superior, os enviados do Dentel ainda entraram em contato com o Sr José Arrabal (superintendente da TV Tupi) comunicando que estavam ali para cumprir a missão. Arrabal concordou mas manifestou o desejo de que primeiro lhe fosse permitido acabar de transmitir uma mensagem dirigida ao Presidente Figueiredo para que ele reconsiderasse a cassação do canal 6 carioca. Depois que retiraram do excitador o cristal (peça responsável pelo funcionamento do transmissor) nos dois painéis (o efetivo e o de emergência) - o que não demorou mais de cinco minutos - os fiscais procederam à lacração dos aparelhos, com os números 5.187.165 e 7.369.887. Tudo se processou tranqüilamente e quase como se tratasse de uma prática de rotina. Os enviados do Dentel se retiraram e, aos poucos, a sala foi ficando vazia.


COM MUITO CHORO, AS TVs ASSOCIADAS ‘’REDE TUPI ‘’SAEM DO AR...

"Um funeral. Com choro e lágrimas os funcionários das emissoras de televisão dos Diários Associados acompanharam ontem a retirada dos cristais e a lacração dos transmissores por técnicos do Dentel. A reação foi a mesma em todas as cidades onde a TV Tupi deixou de funcionar, depois que o presidente João Batista Figueiredo assinou decreto de perempção retirando a concessão dos canais 4 de São Paulo, 6 do Rio, 4 de Belo Horizonte, 6 do Recife, 2 de Belém, 5 de Porto Alegre e 2 de Fortaleza. Em São Paulo, passava um pouco das 11 horas de ontem quando três engenheiros do Dentel, acompanhados de quatro agentes da Polícia Federal, compareceram ao Sumaré, retirando os cristais dos transmissores e lacrando a emissora que levou a primeira imagem de televisão ao ar, no Brasil, com o antigo prefixo PRF 3 TV Tupi-Difusora canal 3, em 1950.” Eu, que vi a inauguração desta emissora, que entrou no ar na rua 7 de Abril, não aguentei o funeral até o fim “, disse Mauro Gonçalves, um dos mais antigos funcionários”, queixando-se da ausência dos responsáveis pela emissora. "Quem deveria estar aqui não era eu e sim o João Calmon e o Edmundo Monteiro." No Rio, o clima não era diferente no antigo cassino da Urca. Depois de uma noite de vigília, na tentativa de sensibilizar o governo para seus problemas, os funcionários receberam os técnicos do Dentel com choros e gritos. A última imagem transmitida foi a do papa João Paulo ll, que serviu de fundo para um texto lido pelo locutor esportivo Carlos Lima. Quando o texto acabou, a emissora saiu do ar e várias pessoas foram socorridas pela equipe médica do hospital Souza Aguiar.

Folha de S. Paulo – 18/07/1980.





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