sexta-feira, 30 de setembro de 2011

“O MEC não sabe o que é educação a distância”.


 Por Paulo Chico

“O MEC não sabe o que é educação a distância”. A afirmação contundente foi feita pelo professor Wagner Horta em artigo publicado em seu blog e serviu para expor sua discordância radical em relação a exigências feitas pelo governo sobre os cursos a distância. Um dos pontos principais destacados pelo professor, experiente comentarista de educação, com passagens pela TV Bandeirantes e Rede TV!, além das rádios Globo, CBN, Record e Transamérica, é o excesso de regulamentação sobre os polos. Justamente um ponto de honra para a Secretaria de Educação a Distância do MEC, que em 10 de fevereiro deste ano suspendeu as atividades em 108 polos considerados irregulares.

“Construir ou alugar prédios, com bibliotecas, laboratórios e professores, replicando o espaço físico original das instituições de ensino, não é o foco central do ensino a distância. Poderíamos até admitir a existência de polos, mas apenas com a função que está na lei. Isto é, polos de apoio presencial, onde acontecem os encontros presenciais obrigatórios, descritos como avaliação. Uma avaliação final do curso, por exemplo, ou práticas de laboratório, quando necessárias, estágios e trabalho final. Porém, o MEC está exigindo que toda e qualquer atividade só pode ser feita no polo, ou seja, se a universidade quiser promover encontros com tutores, aulas via satélite ou internet, o aluno terá que se deslocar até o polo. Ora, isto não é ensino a distância. É ensino presencial no polo”, critica ele.

Formado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Minas Gerais, e apresentador de correção de vestibulares para o Portal Terra, Wagner Horta ainda faz outras críticas à política nacional para a EAD. “Há equívocos em algumas normas como, por exemplo, exigir ou sugerir que um livro usado no polo tenha 170 páginas, determinar o peso de cada prova, a relação numérica de alunos para cada professor e tantos outros absurdos vistos nos termos de saneamento a que estão sendo submetidas as universidades. Medidas que ferem a autonomia universitária e o bom senso dos educadores”.

Segundo o educador, a EAD é o grande projeto de inclusão acadêmica no Brasil, ao levar o conhecimento a milhões de brasileiros que moram em lacalidades distantes, que não têm como se deslocar diariamente para a escola, pois dela vivem longe, trabalham, não têm como arcar com o custo de locomoção ou já se encontram fora da idade escolar. Um projeto fantástico, sob o risco de falir, devido à má condução das políticas públicas. “O secretário de EAD, Carlos Eduardo Bielschowsky, parece não saber que o ensino a distância não concorre com o presencial, pois o perfil dos alunos é completamente diferente. Se o MEC continuar com esta política, ele vai matar o maior projeto de inclusão acadêmica que já existiu no país. Muito maior do que o próprio ProUni”.

Professor convidado da USP, membro do conselho do Centro Paula Souza e fundador do Sindicato das Mantenedoras dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo, Wagner Horta dá alguns bons exemplos de utilização da EAD para a inclusão. “O propósito da EAD deveria ser o de levar a escola aos alunos, quando estes não pode ir à escola. Isso se aplica especialmente àqueles que moram distantes dos centros urbanos, onde estão concentradas as faculdades e as universidades presenciais. Existem exemplos maravilhosos de turmas formadas em aldeias indígenas e assentamentos de sem-terra, por exemplo”, afirmou.

Outro ponto criticado por Wagner Horta é a política de avaliação de cursos a distância, executada atualmente pelo MEC. “Não há mais a presença das antigas delegacias de ensino, com inspetores que frequentem os polos, especialmente nas localidades atendidas pela EAD. Mas a melhor avaliação é feita pelo mercado. Além disso, os exames do Enade e as aprovações nos concursos públicos mostram que o resultado do ensino a distância é superior ao ensino presencial. Na verdade, hoje o MEC descredencia uma universidade que funcionou durante vários anos com EAD sem sequer ter credenciamento… Então, por que permitiu que ela funcionasse? Primeiro, o MEC autoriza 20 mil vagas para uma faculdade que tinha um único polo credenciado. Depois, descredencia a instituição em nome da moralidade. É o próprio Ministério quem gera toda essa confusão”.

A questão da qualidade é mesmo a maior preocupação do professor – autor do conhecido bordão ‘não estude em escola ruim. A vítima vai ser você’ . Nesse caso, o campo da EAD reflete o que ocorre no mercado da educação como um todo, acredita ele. “A deficiência da EAD ocorre da mesma forma como nos cursos presenciais. Uma rápida leitura dos resultados das avaliações mostra o retrato das instituições. Mas, o maior crime é o MEC não fechar instituições desqualificadas. O Brasil deveria adotar o modelo de muitos países e estabelecer uma forma de permitir o exercício profissional após um exame, como aliás já temos com a OAB. Isto já foi tentado e permitiria a melhor seleção das escolas que temos. O MEC não foi capaz de autorizar e fiscalizar as universidades, no sentido de permitir que apenas aquelas de qualidade permanecessem. Então, já que o MEC é impotente, vamos deixar o mercado cuidar disto”, defende.

E como proteger-se de cursos EAD de baixa qualidade, ainda em oferta no mercado? “Na hora de se inscrever, o estudante deve levar em conta a estrutura e a formação do corpo docente das universidades emissoras de conhecimento. Isso é o fundamental. O bom curso é aquele que oferece professores formuladores com vasta experiência nas tratativas dos seus conteúdos e na sua relação de interação com os estudantes”, orienta ele, que também é diretor do Jornal da Educação Vestibular e do Guia das Profissões.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Goulart poderia tornar o Brasil socialista?

Imagem: Leonel Brizola no Discurso de Jango
em 13 de março de1964 na Central do Brasil no RJ
Fonte: Reprodução Blog Brasil Recente

Por Carlos Fico

Na última enquete do Brasil Recente, perguntamos se havia o risco de o Brasil se tornar socialista em 1964: o golpe foi “preventivo” ou a alegação foi apenas uma desculpa para derrubar Goulart? Para a ampla maioria (76%),  isso foi um mero pretexto.

De fato, a retórica anticomunista já era antiga no Brasil em 1964. Ela se tornou mais agressiva depois dos levantes comunistas de novembro de 1935. Naquela época, a existência de células comunistas nos quartéis e a presença no Brasil de membros do komintern deram concretude ao discurso anticomunista, que perduraria mesmo depois, quando as iniciativas comunistas debilitaram-se.

A referência à chamada “intentona comunista” de 1935 esteve presente em todo o regime militar. Na verdade, as comemorações do Exército sobre a derrota dos levantes de 1935 mantiveram-se até o governo de Fernando Henrique Cardoso, assim como a celebração do golpe de 1964 só foi desautorizada meses atrás, pela atual presidente Dilma Rousseff.

Goulart não era comunista e, na verdade, poucos o acusavam disso. Entretanto, muitos pensavam que o presidente pretendia perpetuar-se no poder além do prazo constitucional, o que seria um golpe. Após isso, por sua suposta fragilidade política, Goulart acabaria controlado pelos comunistas. Esta era a versão, por exemplo, que a embaixada dos EUA sustentava em seus documentos.

Assim, o golpe de 1964 teria sido um “contragolpe preventivo”, para evitar o “golpe” de Goulart. Curiosamente, esta tese é defendida tanto pelo coronel Jarbas Passarinho – ministro de Costa e Silva, da junta militar, de Médici e de Figueiredo que aprovou o AI-5 com a famosa frase “às favas os escrúpulos de consciência” –, quanto pelo historiador Jacob Gorender – fundador do PCBR – para o qual os golpistas tinham sobradas razões para agir “antes que o caldo entornasse”.

A tese é difícil de sustentar pelo menos por duas razões.

Em primeiro lugar, ela é anacrônica, já que especula sobre algo que não aconteceu: o golpe foi dado, efetivamente, não por Goulart, mas pelos militares e pela elite política civil com o apoio da imprensa, da classe média, da igreja católica e outros setores.

Em segundo lugar, não existem evidências empíricas indiscutíveis de que Goulart estivesse planejando um golpe. Ele fez alguns discursos radicais a partir de 1963, bem como Brizola, seu cunhado, que falava em ultrapassar o Congresso em favor das reformas de base. Isso é muito pouco.

O argumento de Gorender é mais sofisticado: entre  1960-1964, o Brasil teria assistido ao “ponto mais alto das lutas dos trabalhadores brasileiros neste século” e, entre 1963 e 1964, teria havido uma aglutinação das forças que configurou uma “situação pré-revolucionária”. Entretanto, nem a dinâmica social (marcada, de fato, por muitas greves e atividade político-sindical), nem o fermento revolucionário foram capazes de impedir o golpe da direita: não houve resistência alguma. Se as coisas estivessem tão inflamadas, poderia ter havido uma reação da parte dos trabalhadores, dos estudantes ou de qualquer outro setor da esquerda, mas não houve nada.

A idéia do “contragolpe preventivo” serve para justificar o golpe de 64. Goulart foi deposto porque introduziu na agenda política temas como a reforma agrária, a habitação popular, o analfabetismo e a reforma universitária. Ele deu a impressão de fomentar conquistas populares demasiado amplas que, aos olhos de setores da elite, poderiam levar à radicalização da democracia. No contexto da Guerra Fria e sob o influxo do anticomunismo, isso pareceu intolerável.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

27 de setembro de 1981 - Pixote, a Lei do Mais Fraco, conquista o Biarritz

Por: Lucyanne Mano
Imagem: Reprodução Blog Hoje na História

Já premiado na Suíça, foi a vez de Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco vencer o Grande Prêmio do Festival de Cinema Ibérico e Latino-Americano de Biarritz, na França, além do Grande Prêmio do Público, laúrea instituída pela primeira vez naquele festival.

Premiado na Europa, Pixote foi recebido no circuito norte-americano como um nocaute, ao tratar de questões sociais sérias, do drama brasileiro de delinqüentes juvenis sobreviventes dos reformatórios ineficazes e das realidades brutais. E se beneficiou da continuidade dos lançamentos de filmes brasileiros de qualidade no mercado norte-americano. Depois de uma longa pausa após o cinema novo e os anos 60, o cinema contemporâneo brasileiro voltou a subir na cotação a partir de 1978, sem o vigor vanguardista anterior, mas com um acabamento formal que visava aos grandes mercados. Assim, seguiu os passos de Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto; Bye, Bye, Brasil, de Cacá Diegues; e Gaijin, de Tizyka Yamazaki.



Pixote é um menor abandonado que mora nas ruas e faz roubos para sobreviver. Com passagens por reformatórios, aprende a se virar com o convívio com todos os tipos de criminosos e deliquentes. Traficante, cafetão e assassino, com apenas 11 anos de idade. Coube a Fernando Ramos da Silva e Marília Pera a interpretação dos principais papéis do filme.

Pixote suscitou muitas polêmicas, inclusive ideológicas. Alguns críticos disseram que Babenco explorou a situação da miséria no Brasil, até para fazer sensacionalismo com a sexualidade da marginalização. Houve também tentativas de censura às cenas tidas como mais fortes.

O filme de Babenco foi encurtado para exportação, passando a durar duas horas e apresentado uma narração inicial que lhe deu um tom quase didático. Babenco aparece em cima de uma favela. Apontando para baixo, lê algumas estatísticas do Brasil dos anos 80: "Mais de 50% da população do Brasil têm menos de 21 anos, e há 3 milhões de crianças sem lar... Não existem crechês ou serviços sociais para atendê-las e enquanto os pais ganham a vida, elas vagam pelas ruas, vítimas de crimonosos mais velhos que se aproveitam do fato de a lei não perseguir menores de 18 anos para tornar os menores cúmplices ou perpetradores de crimes".

Anos mais tarde a vida imitaria o cinema. Menino de rua, Fernando Ramos tornou-se ator ao ser escolhido para viver o personagem Pixote. Considerado uma revelação, colheu alguns louros daquela conquista. Mas, embora tenha tentado continuar na carreira, a falta de oportunidades o levou novamente às ruas e à criminalidade em Diadema, SP. Sob suspetia de cometer um assalto, aos 19 anos, sem camisa e desarmado, Fernando foi morto com 8 tiros por policiais.


Fonte: Blog Hoje na História CPDOC/Jornal do Brasil.  Disponível em: http://www.jblog.com.br/hojenahistoria.php

Google comemora 13º aniversário

Reprodução Blog Falando de História


O motor de pesquisa da internet Google celebra, nesta terça-feira, 13 anos de existência, tendo como imagem do cabeçalho da página principal, uma festa de aniversário.
Um cenário de festa: balões de várias cores, serpentinas, chapéus, entre outros modos festivos, fazem parte da imagem principal do motor de busca.
Embora os fundadores do Google, Larry Page e Sergey Brin, tenham criado o primeiro motor de pesquisa em 1996, só em 1998 é que formalizaram o projecto e criaram a marca.  
O Google foi o resultado de uma tese de doutoramento em Ciências da Computação dos dois fundadores na Universidade de Stanford.  
A empresa teve o seu arranque a quatro de Setembro de 1998. O registo do domínio Google.com aconteceu a 15 de Setembro do mesmo ano, mas o aniversário é registado a 27 do mesmo mês.

40 mil acessos do Blog FH


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O Manifesto contra o Tradicionalismo


O Manifesto que reproduziremos, foi lançado na internet em 2007. Assina o documento, o jornalista e historiador Tau Golin. Ao reproduzir o material a ideia não é fazer qualquer tipo de perseguição aos adeptos do Tradicionalismo. Embora, não seja adepto ao Movimento Tradicionalista, a finalidade deste post é o de fazer um repensar sobre este último Vinte de Setembro. 
Não almejo ofender ninguém e sim propor uma reflexão de cunho histórico e cultural.  Eis o manifesto: 

I - Em defesa de uma cultura e de uma estética correspondentes à memória e à história do Rio Grande do Sul.
O Rio Grande do Sul é um estado da federação brasileira resultante de um longo processo histórico de conquista e ocupação, no âmbito da geopolítica colonial, na disputa territorial entre Portugal e Espanha. O território foi consolidado em suas dimensões definitivas no período imperial e teve pequenas áreas ajustadas na República Velha.
Em todo o ciclo histórico, observou-se o esforço de vidas humanas e material para a construção de um espaço luso-brasileiro nos séculos iniciais, e brasileiro, com a Independência, a partir de 1822. A população do Rio Grande concorreu para a invenção do Brasil soberano. Nesse ato, passou a ter uma identidade e a pertencer a um Estado-nação. Historicamente, a escolha rio-grandense foi pelo seu pertencimento brasileiro, rompendo com Portugal e tendo a América espanhola como sua alteridade.
Concorreram para a conquista, ocupação e formação da sociedade sulina indivíduos de diversos grupos sociais e étnicos, genericamente identificados como: portugueses, índios, negros, mamelucos, cafuzos, mestiços da terra; espanhóis, uruguaios, argentinos, paraguaios, que escolheram permanecer na terra independentemente dos tratados divisórios; imigrantes de projetos de colonização ou que se aventuraram individualmente, em especial, advindos de territórios atualmente inseridos na territorialidade da Alemanha, Itália, Polônia, Rússia, Ucrânia, Espanha, França, etc.
Ao longo do tempo, o rio-grandense se formou através da inserção em uma identidade política, na composição da brasilidade e da naturalidade regionalizada e fronteiriça. E no cotidiano, através da vivência de todas as culturas, hábitos e costumes de origem, reelaborados na dinâmica da convivência.
Nesse processo de formação, em diversos de seus setores, ocorreu um involucramento com a sociedade e a cultura platina e latino-americana.
Historicamente, o Rio Grande é multicultural e multi-étnico.
Cultural e simbolicamente é uma região de representação aberta, de recriação constante, como critério indispensável às manifestações de pertencimento, motivadas pelas transformações históricas, sociológicas e culturais, típicas de uma sociedade em movimento, de transformações estruturais e antropológicas, onde ainda se opera, por exemplo, a mestiçagem dos grupos étnicos de origem. Um estado onde as fronteiras internas são evidentes.
Portanto, só é legítima a cultura que representar esta diversidade.
Conseqüentemente, é ilegítimo todo o movimento ou iniciativa doutrinária de orientação pública ou particular que não represente a complexidade social e cultural do estado.
É alienante e escapista todo o movimento que impede e atua através de instrumentos de coerção cultural, midiático ou econômico, com o objetivo de dificultar os desenvolvimentos culturais e estéticos que tomam os indivíduos e as realidades contemporâneas como matérias de suas criações e vivências estéticas.
É repressor todo o movimento que milita através do governo, da educação, da economia e da mídia, para fechar os espaços das manifestações artísticas, das representações simbólicas e das inquietações filosóficas sobre os múltiplos aspectos do Rio Grande do Sul.
É doutrinador e usurpador do direito individual todo o movimento organizado que impõe modelos de comportamento fora de seu espaço privado, se auto-elegendo como arquétipo de uma moralidade para toda a sociedade.
Nessa direção, consideramos como legítimas as manifestações que tomam os rio-grandenses em suas complexidades históricas e culturais, dimensionados em seus tempos sociais, e que transformam, em especial, a sociedade contemporânea como expressões de suas criações estéticas, formulações teóricas e inquietações existenciais.
Somos, em razão disso, contra todas as forças que dogmatizam, embretam, engessam, imobilizam a cultura e o saber em "expressões" canonizadas em um espaço simbólico de revigoramento e opressão a partir de um "mito fundante", inventando um imaginário para atender interesses contemporâneos e questionáveis, geralmente identificados pela história como farsa e inexistência concreta. Consideramos que todo o processo de invenção e sustentação de uma visão "mitologizada" objetiva, unicamente, atender interesses atuais; é uma forma de militância que recorre à fábula, a ressignificação de rituais, hábitos e costumes, como forma de "legitimação" de causas particulares como se fossem "tradições" coletivas.
II - Em defesa de uma racionalidade sobre a história do Rio Grande do Sul, de equivalência para todos os construtores de nossa sociedade, de equiparação e direito para todas as manifestações culturais, de inclusão multicultural e respeito às heranças étnicas, sem que todas essas expressões sejam diluídas em um gauchismo pilchado de civismo ufanista, ideológico e manipulador dos mais sinceros sentimentos do povo.
Fundamentados nos princípios acima e nos demais existentes no transcurso deste manifesto, identificamos o MOVIMENTO TRADICIONALISTA GAÚCHO (MTG) como o principal instrumento de negação e destruição desses traços culturais e direitos fundamentais do povo rio-grandense.
Nossa posição se fundamenta nos seguintes argumentos:
1.. Somos contra o Movimento Tradicionalista Gaúcho, especialmente porque, em sua cruzada unificadora, construiu uma idéia vitoriosa de "rio-grandense autêntico", pilchado e tradicionalista, criando uma espécie de discriminação, como se a maioria da população tivesse uma cidadania de segunda ordem, como "estrangeira" no "estado templário" produzido fantasiosamente pela ideologia tradicionalista.
2.. Somos contra o Movimento Tradicionalista Gaúcho, por identificá-lo como um movimento ideológico-cultural, com uma visão conservadora e ilusória sobre o Rio Grande, cujo sucesso se deve, em especial, à manipulação e ressignificação de patrimônios genuínos do povo, pertencentes aos seus hábitos e costumes.
3.. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele não é a Tradição, mas se arrogou de seu representante e a transformou em elemento de sua construção simbólica, distorcendo-a, manipulando-a, inserindo-a em uma rede gauchesca aculturadora, sem respeito às tradições genuinamente representativas das diversidades dos grupos sociais.
4.. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele não é Folclore, mas o caducou dentro de invernadas artísticas e retirou dele seus aspectos dinâmicos e pedagógicos; o seu apresilhamento ao espírito e ao sentido do pilchamento do estado está destruindo o Folclore do Rio Grande do Sul.
5.. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele é um movimento organizado na sociedade civil, de natureza privada, mas que desenvolveu uma hábil estratégia de ocupação dos órgãos do Estado, da Educação e de controle da programação da mídia, conseguindo produzir a ilusão de que o tradicionalismo é oficialmente a genuína cultura e a identidade do Rio Grande do Sul. A "representação" tomou o lugar da realidade.
6.. Somos contra o Tradicionalismo, porque, insensível à história e à constituição multicultural do Rio Grande do Sul, através de procedimentos normativos, embretou o rio-grandense em uma representação simbólica pilchada.
7.. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele criou um calendário de eventos e, através de seus prepostos, aprovou leis que "reconhecem" o próprio tradicionalista como modelo gentílico, apesar de ser, em verdade, um ente contemporâneo, sem enraizamento histórico e cultural.
8.. Somos contra o Tradicionalismo porque identificamos nele a criação de instrumentos normativos usurpadores, com a ambição de exercer um controle sobre a população, multiplicando a cultura da "patronagem", com a reprodução de milhares de caudilhetes que tiranizam os grupos sociais em seu cotidiano. Tiranetes que, com sua truculência, ditam regras "estéticas" e limitam os espaços da arte e da cultura, lançando o preconceito estigmatizador, pejorativo e excludente, sobre formas de comportamento e manifestações artísticas inovadoras ou sobre concepções do regional, diferentes da matriz "cetegista", mesmo quando essas manifestações surgem no interior do próprio Tradicionalismo.
9.. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele instrumentaliza política e culturalmente uma visão unificadora, como se a origem identitária do Rio Grande estivesse no movimento da "minoria farroupilha", falseando sobre a sua natureza "republicana", elencando um panteão de "heróis" latifundiários e senhores de escravos, como se fossem entes tutelares a serem venerados pelas gerações atuais e vindouras.
10.. Somos contra o Tradicionalismo, por ele se fazer passar por uma Tradição, desmentida pela própria história de sua origem, ao ser inventado através de uma bucólica reunião de estudantes secundaristas, em 1947, no colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre.
11.. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele se transformou em força institucional e "popular", em cultura oficial, através dos prepostos da Ditadura Militar no Rio Grande do Sul.
a) Na verdade, em 1964, o Tradicionalismo foi incluído no projeto cultural da Ditadura Militar, pois o "Folclore", como fenômeno que não pensa o presente, serviu de alternativa estatal à contundência do movimento nacional-popular, que colocou o povo e seus problemas reais no centro das preocupações culturais e políticas.
b) O Tradicionalismo usurpou, assim mesmo, o lugar do Folclore, e se beneficiou do decreto do general Humberto Castelo Branco, de 1965, que criou o Dia Nacional do Folclore, e suas políticas sucedâneas. A difusão de espaços tradicionalistas no Estado e as multiplicações dos galpões crioulos nos quartéis do Exército e da Brigada Militar são fenômenos dessa aliança.
c) A lei que instituiu a "Semana Farroupilha" é de dezembro de 1964, determinando que os festejos e comemorações fossem realizados através da fusão estatal e civil, pela organização de secretarias governamentais (Cultura, Desportos, Turismo, Educação, etc.) e de particulares (CTGs, mídia, comércio, etc.).
d) Durante a Ditadura Militar, o Tradicionalismo foi praticamente a única "representação" com origem na sociedade civil que fez desfiles juntamente com as forças da repressão.
e) Enquanto as demais esferas da cultura eram perseguidas, seus representantes censurados, presos, torturados e mortos, o Tradicionalismo engrossou os piquetes da ditadura - seus serviçais pilchados animaram as solenidades oficiais, chulearam pelos gabinetes e se responsabilizaram pelas churrasqueadas do poder. Esse processo de oficialização dos tradicionalistas resultou na "federalização" autoritária, com um centro dominador (ao estilo do positivismo), com a fundação do Movimento Tradicionalista Gaúcho, em 1967. Autoritário, ao estilo do espírito de caserna dos donos do poder, nasceu como órgão de coordenação e representação. Enquanto o general Médici, de Bagé, era o patrão da Ditadura e responsável, juntamente com seu grupo, pelos trágicos anos de chumbo que enlutaram o Brasil na tortura, na execução, na submissão à censura, na expulsão de milhares de brasileiros para o exílio, os tradicionalistas bailavam pelos salões do poder. Paradoxalmente, enquanto muitos freqüentadores de CTGs eram perseguidos ou impedidos de transitarem suas idéias políticas no âmbito de suas entidades, o Tradicionalismo oficialista atrelou o movimento ao poder, pervertendo o sentimento de milhares de pessoas que nele ingressaram motivados por autênticos sentimentos lúdicos de pertencimento e identidade fraterna.
f) Através da relação de intimidade com a ditadura, o MTG conseguiu "criar" órgãos estatais de invenção, difusão e educação tradicionalista, ao mesmo tempo em que entregou, ou reservou diversos cargos "públicos", para seus ideólogos, sob os títulos de "folclorista", "assessor cultural", etc.
g) O auge do processo de colaboração entre a Ditadura e o MTG foi a instituição do IGTF - Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, em 1974, consagrando uma ação que vinha em operação desde 1954. A missão era aparentemente nobre: pesquisar e difundir o folclore e a tradição. Mas do papel para a realidade existe grande diferença. Havia um interesse perverso e não revelado. A constituição do quadro de pessoal, ao contrário da inclusão de antropólogos, historiadores da cultura, pessoas habilitadas para a tarefa (que deveriam ser selecionadas por concurso público), o critério preponderante para assumir os cargos era, antes de tudo, a condição de tradicionalista. Assim, um órgão de pesquisa, mantido pelo dinheiro público, transformou-se em mais uma mangueira do MTG. Com o passar dos anos, os governos que tentaram arejar o IGTF, indicando dirigentes menos dogmáticos, invariavelmente, entraram em tensão com o MTG.
h) Essa rede de usurpação do público pelo Tradicionalismo, por fim, atingiu a força de uma imanência incontrolável. Em 1985, já na redemocratização, o MTG conseguiu que a Assembléia Legislativa instituísse o Dia do Gaúcho, adotando como tipo ideal o "modelo" tradicionalista.
i) Em 1988, com uma manipulação jamais vista na vida republicana, o MTG se mobilizou pela aprovação da lei estadual que estabeleceu a "obrigatoriedade do Ensino de Folclore"; na regulamentação, a lei determinou que o IGTF exercesse a função de "suporte técnico", sem capacitá-lo pedagogicamente. De fato, passou a ocorrer uma relação direta entre as escolas e os CTGs. Dessa maneira, o Tradicionalismo entrou no sistema educacional, transgredindo a natureza da escola republicana como lugar de estudo e saber, e não de culto e reprodução de manuais. Hoje, os alunos são adestrados pela pedagogia de aculturação e cultuação tradicionalista.
j) Por fim, em 1989, a roupa tradicionalista recebeu o nome de "pilcha gaúcha", e foi convertida em traje oficial do RS, conforme determinação do MTG.
12.. O grande poncho do MTG, por derradeiro, foi tecido pela oficialização dos símbolos rio-grandenses, emanados diretamente do simulacro da "república" dos farroupilhas.
III - Em defesa de uma cultura que respeite os tempos de registro histórico-cultural e de representação contemporânea e sua densidade histórica.
13.. Somos contra o MTG, porque consideramos indispensável para a cultura regional distinguir os fenômenos da história dos da memória, identificar os eventos em seus tempos históricos e desenvolver um conhecimento em que os tempos históricos não sejam diluídos nas celebrações contemporâneas e seus interesses ideológicos, culturais e econômicos. A "institucionalização" de uma cultura cívica e de lazer tradicionalista como "legitimidade", reforçada e inserida na indústria cultural pilchada, impõe uma visão da sociedade e do passado, segundo a ótica dos interesses dos indivíduos que operam socialmente na atualidade. Através dessa falsa "historicidade", eles se legitimam como "autênticos" e podem especular com este inventivo "selo de qualidade".
14.. Somos contra o MTG, porque a sua atividade de militância "aculturadora", ressignificando símbolos, ícones, eventos históricos, em um espaço praticado e imaginado como o ethos de uma estância atemporal, empobrece culturalmente o Rio Grande do Sul e, de fato, relega etnias e grupos sociais, historicamente importantes, à massa dos "sem-simbologia".
15.. Somos contra o MTG, porque o seu controle e patrulhamento vigora sobre a sociedade como um espectro opressivo, em muitos casos como uma maldição, como uma ameaça punitiva, desclassificativa daqueles que não ideologizam as pilchas ou não se enquadram nos modelos "humanos", geralmente caricaturais, decretados pelo MTG.
16.. Somos contra o MTG, porque aqueles que se libertam de sua doutrina, depois do longo processo de adestramento, geralmente iniciado na infância, enfrentam traumas de identidade, especialmente ao descobrirem suas "versões manipulatórias" da história, como a de que o povo do Rio Grande do Sul se levantou contra o Império, ou que os farroupilhas eram republicanos.
17.. Somos contra o MTG, porque ele pratica a demência cronológica e estatística, impondo a deturpação de que o povo se levantou contra o Império e os imigrantes e seus descendentes também cultuaram a Revolução Farroupilha, quando, quase em sua totalidade, sequer estavam no RS entre 1835 e 1845. Se um dia aportaram no Brasil, isso se deve ao projeto de colonização do Império. Os projetos de colonização fundamentais, que contribuíram para a formação do Rio Grande do Sul contemporâneo, não pertenceram aos farroupilhas.
18.. Somos contra o MTG, porque ele ajudou a instituir e alimenta em seu calendário de celebrações, nas escolas, na mídia, um panteão de "heróis", na sua maioria senhores de escravos.
19.. Somos contra o MTG, porque ele é uma força militante ideológica e cultural que trabalha contra a criação de uma mentalidade ilustrada; a transposição para o presente de personagens do antigo regime, como "lumes tutelares" a serem adorados, impediu que se fizesse, nesse particular, um movimento cultural com a densidade dos princípios consagrados pela Revolução Burguesa.
20.. Somos contra o MTG, por ele ter transformado a população em adoradora de senhores de escravos (no geral, sem saberem).
21.. Somos contra o MTG, especialmente, porque defendemos o RS da inclusão, da convivência multicultural, de todas as indumentárias, de todos os ritmos, de todas as danças, de todas as emoções, de todos os trabalhos e ofícios, de poéticas de múltiplos espaços, e não da territorialidade simbólica exclusiva do pampa.
22.. Somos contra o MTG, porque desejamos construir espaços poéticos que representem também a complexidade de nosso tempo.
23.. Somos contra o MTG, porque, em defesa dos postulados da liberdade de criação e de comportamento, do saber sobre o culto inócuo e ideologicamente manipulador, o identificamos como o instrumento preponderante de negação dos direitos elementares da liberdade, da igualdade e da fraternidade.
24.. Somos contra o MTG, por se tratar de um movimento de interesse hegemonizador sobre a sociedade sul-rio-grandense, de caráter privado, que transgride a sua esfera particular, para operar um autoritarismo de conversão dogmática da população a um estilo gauchesco, inventado e normatizado por seus membros, como expressão estilística de um pretenso gentílico de conteúdo e forma cívico-ufanista.
25.. Somos contra o MTG, porque, ao se transformar arbitrária e oficialmente em uma imagem gentílica, se converteu em um movimento de intolerância cultural no Rio Grande do Sul e em outras regiões do Brasil e do mundo, através de instalações de CTGs que não respeitam as culturas locais, que invadem como intrusos localidades de tradições milenares, usurpando seus espaços, destruindo sua poética popular e deturpando sua arquitetura. Nessa operação, o Tradicionalismo não é uma "representação" aceitável da cultura sulina, mas o instrumento de uma "aculturação", da não inserção dos grupos migrantes nas culturas locais, transformando-se, de fato, em agente de destruição.
26.. Somos contra o MTG, porque, ao se converter em uma representação do Rio Grande do Sul e exercitar sua arrogância aculturadora em outros espaços sócio-culturais, fazendo uma escolha pela não inserção e respeito às populações do restante do Brasil e do mundo, está desencadeando movimentos de reação discriminatória contra os "gaúchos". Devido às posturas dos tradicionalistas, tornam-se cada vez mais freqüentes campanhas populares de "Fora gaúchos" em outros estados da federação, confundindo os "tradicionalistas" com os "rio-grandenses", jogando sobre o povo do RS um estigma motivado unicamente pelo "cetegismo". Essa militância tradicionalista contribui, de fato, para a difusão da intolerância na população sulina.
27.. Somos contra o MTG, por considerá-lo agente de um dano irreparável à maioria dos sul-rio-grandenses frente ao Brasil, pois defendemos princípios de identidades regionais harmonizados com as genuínas culturas locais das demais regiões brasileiras.
28.. Somos contra o MTG, por ele se apresentar militantemente em outras unidades da federação, em seu extremo, como uma "etnia gaúcha", deturpando a formação multi-étnica sul-rio-grandense, e ofendendo, além de tudo, os conceitos mais elementares da Antropologia.
29.. Somos contra o MTG devido a sua soberba de pressionar outros estados brasileiros para adotar a "pilcha gauchesca" como traje oficial, produzindo ainda maior rejeição aos sul-rio-grandenses.
30.. Somos contra o MTG no Rio Grande do Sul e nos demais estados brasileiros pela sua articulação incessante para se transformar na cultura oficial, ou ser reconhecido como "uma representação externa", e desejar se constituir em guardião dos símbolos, dos ícones e do imaginário do povo.
31.. Somos contra o MTG, porque, como entidade privada, ele tange, em sua arreada intolerante, grande parte das verbas públicas dos setores da cultura, da educação, do turismo, da publicidade e da Lei de Incentivo à Cultura das empresas estatais, fundações e autarquias, para o seu imenso calendário de eventos, onde, nem sempre, se distingue a cultura do turismo e do lazer.
a) Em defesa da cultura rio-grandense postulamos pela instalação de uma CPI na Assembléia Legislativa, para investigar a transferência de verbas e infra-estruturas públicas para as atividades tradicionalistas, o que caracteriza flagrantemente uma usurpação do patrimônio público.
b) Reivindicamos audiências públicas ao Conselho de Cultura, para discutir a canalização da LIC para um excessivo predomínio de projetos tradicionalistas, muitos de caráter turístico e de lazer, iludindo a natureza da Lei.
c) Alertamos e igualmente reivindicamos audiências públicas ao Conselho de Educação, para discutir a deturpação dos currículos e dos princípios de Educação Pública, em conseqüência da infestação, da usurpação e da distorção pedagógica representada pela invasão tradicionalista nas escolas, substituindo os preceitos do "saber", do "estudar", pelo "culto" e pelos "manuais" tradicionalistas. O indicativo dessa distorção e atropelo obscurantista é a transformação do próprio espaço escolar, com a criação de "piquetes" e "invernadas artísticas". Essa situação revela a falência pedagógica da escola, o abandono de sua natureza laica e republicana. Os alunos são induzidos a comportamentos e práticas dogmáticas, adestradoras, apresilhados a uma identidade questionável, originada em um mito fundante. Essa escola doutrinariamente cívica, "gentílica" e de "orgulho gaúcho" exercita a fé, a pertença alienada. Ela significa a falência da Educação. Por essa razão, reconhecemos como legítima a revolta daqueles professores que rejeitam a sua conversão em instrumentos de realização do calendário tradicionalista, como se fossem meros executores de seus manuais dentro dos educandários. Reconhecemos como legítima a resistência dos professores às pressões para serem transformados em pregadores pelas direções, pelo poder e por alguns ciclos de país e mestres, pois esse enquadramento significa a negação de suas funções constitucionais de educadores.
32.. Somos contra o MTG, porque, entre todas as suas deturpações, a mais grave é representada pela sua própria oficialização, cujo corolário é a ambição de instituir como "legalidade" a sua versão da história, através de uma legislação introduzida progressivamente na esfera pública. Em alguns processos judiciais contra pessoas transformadas em réus, por terem feito crítica ao Tradicionalismo ou aos seus atos, os advogados do MTG argumentam com "base" em leis que os parlamentares tradicionalistas criaram, em decretos de seus executivos, em "epistolas" de seus ideólogos.
33.. Somos contra o MTG, porque, devido à sua ação de controle cultural, uso das verbas públicas, interferência nos currículos escolares, vigilância sobre os meios de comunicação, imposição manipulatória de uma idéia de "história" que converteu em "heróis" senhores de escravos, sua hegemonia e operação militante no Estado, na sociedade civil e no senso comum, contribui para a mediocrização do Rio Grande do Sul em seus aspectos culturais, de inserção moderna e respeitosa no Brasil e na América, produzindo uma incapacidade de leitura crítica da sociedade rio-grandense e do mundo. Nas últimas décadas, os acontecimentos culturais populares importantes se constituíram na relação e na contradição com o Tradicionalismo. Na maioria dos casos tiveram que superá-lo, ou negá-lo, para sobreviverem e afirmarem os seus espaços estéticos.
34.. Somos contra o MTG em sua usurpação do público, mas, por outro lado, ainda como manifestação de nossos princípios republicanos, defendemos o MTG quanto ao seu direito privado, ao seu exclusivo espaço cultural, à noção de que ele é apenas um segmento interpretativo da história e da cultura do Rio Grande do Sul, sem que as suas convicções singulares tenham a ambição e a ação militante ilegítima de "aculturação" das demais esferas sociais e culturais do estado, sem que se coloque no topo de uma hierarquia dominante e exclusivamente gauchesca da identidade.
35.. Somos contra o MTG, exclusivamente, no que tange à usurpação das esferas públicas e à coerção de nossos direitos civis, culturais e estéticos.
36.. Somos contra o MTG, porque identificamos nele a alimentação de uma sinergia cultural que atolou o Rio Grande do Sul no passadismo conservador, criando uma força de pertencimento que bloqueia o desenvolvimento de uma energia socialmente humana moderna, humanista, republicana, respeitosa com os sentimentos historicamente multiculturais da população rio-grandense.
37.. Somos contra o MTG, porque nos sentimos reprimidos, cerceados e vitimizados, cultural e profissionalmente, por ele, identificando-o como uma força militantemente dogmática contra os nossos direitos e cidadania.
38.. Somos contra o MTG, porque defendemos o Folclore representativo da nossa multiplicidade étnica, consideramos as frações da Tradição que expressam as relações humanizadas e o espírito solidário do povo sul-rio-grandense, a Cultura Popular, os espaços efetivos para uma cultura que expresse nossa historicidade, desde o passado até a atualidade, e, principalmente, porque postulamos uma estética sem embretamentos, capaz de apreender a complexidade regional com suas particularidades e conexões universais.
Rio Grande do Sul, março de 2007.
Entrevista Especial de Tau Golin ao Instituto Humanitas  UNISINOS em 2007
Há cerca de três semanas circula pela internet o Manifesto contra o Tradicionalismo, escrito por um grupo formado por jornalistashistoriadores,produtores culturaispedagogos e autoridades acadêmicas. O manifesto é um texto que reúne diversas reflexões sobre o sentido do MTG na sociedade rio-grandense. Segundo o grupo, “o manifesto é, em seu conjunto, a defesa da cidadania, da democracia, das relações republicanas e da liberdade cultural (...) representa um movimento da ilustração contra o fundamentalismo”. 
IHU On-Line conversou com o professor e jornalista Tau Golin sobre o manifesto. Durante a entrevista, feita por e-mail e telefone, Tau Golin afirma que “o Tradicionalismo, ao ser inventado por um grupo de jovens secundaristas (...),  surgiu no sopro dos regionalismos, porém com uma adaptação, com a busca de um modelo. Esse modelo foi se especializando até se transformar em uma militânciasistêmica”.
Luis Carlos Tau Golin graduou-se em jornalismo (1986) e História (1994). Seu mestrado e doutorado, na área de história, foram concluídos na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Atualmente, é professor da Universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Seus projetos de pesquisa atuais estão focados na iconografia e no inventário documental da fronteira do Estado em dois de seus vizinhos: Argentina e Uruguai. Além disso, estuda a formação das fronteiras geopolíticas do Rio Grande do Sul.
Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual a função atual do MTG na sociedade gaúcha?
Tau Golin - O Tradicionalismo passou por algumas fases distintas até assumir oficialmente um caráter “oficialista”, cívico-fundamentalista. Em todo o seu desenvolvimento, no entanto, ele representa a expressão de uma contradição fundamental, de uma tensão entre os dirigentes e as esferas concretas das representações sociais. O Tradicionalismo teve seu impulso criador no espectro dos movimentos regionalistas, que começaram a aparecer na segunda metade do século XIX. No Brasil, invariavelmente, durante a República Velha, as elites regionais buscaram tipificar seus perfis nos discursos e símbolos locais. Na luta política, curiosamente, esses elementos eram utilizados como caracterização "do outro", muitas vezes como caricatura, com elementos pejorativos. Essas "nomeações", no geral, ocorriam a partir "de fora". E aquilo que inicialmente possuía uma intenção depreciativa passava a ser adotado como uma caracterização identitária. A truculência da elite rio-grandense na cena política nacional e platina deu-lhe o classificativo depreciativo de "gaúcho" (grupo social de ladrões de campo, salteadores, gente sem hábitos civilizatórios etc.). Por diversos processos, acabou em gentílico.
O Tradicionalismo, ao ser inventado por um grupo de jovens secundaristas no Colégio Júlio de Castilhos (1), surgiu no sopro dos regionalismos, porém com uma adaptação, com a busca de um modelo. Cezimbra Jacques (2) já organizara os grêmios gaúchos para manter lembranças da vida campeira. Manifestações desse tipo já haviam surgido noUruguaiPaixão Cortês (3) fora tocado pelos rodeios e estilo de vida dos caubóis norte-americanos. Todas essas influências resultaram na escolha da "estância tradicional", a propriedade privada, o espaço da elite agropastoril e escravocrata, como oethos, o mito fundante regional.
O modelo foi se especializando até se transformar em uma militância sistêmica. Todos os elementos simbólicos populares, hábitos, costumes etc., foram inseridos e reinventados, inspirando criações, no universo de uma ampla estância imaginativa. O próprio estado,multicultural e multirracial, aos poucos, foi sendo consagrado como uma versão simbólica de estância. Ao se apropriar dos elementos reais e simbólicos da população, dando-lhe novo sentido, o Tradicionalismo transformou-se em verdadeiro sugadouro. Entretanto, essa motivação genuína da população, de etnias, ao mesmo tempo que foi direcionada para o civismo obediente e regulador, inseriu no âmbito do Tradicionalismo as tensões contraditórias entre as manobras reguladoras do poder dirigente e os modos de vida regionais, das culturas locais, das visões e concepções sobre o que é ou deveria ser a cultura do Rio Grande do Sul. De outro lado, como partiu de mosaicos de folclores, culturas populares, danças, cantigas, espaços gauchescos, buscou estilos onde esses aspectos já existiam ou estavam em desenvolvimento superior - Uruguai e Argentina. A cópia e a imitação também fizeram parte. Entretanto, ao contrário do viés cívico, governamental, militaresco e disciplinador do Tradicionalismo, no Prata, o "folclore" possui convicção e se constitui no espaço "dos paisanos" e anda sempre ao arrepio do poder; cultua, inclusive, um certo ódio ao "milico". Bem ao contrário do Rio Grande, onde o Tradicionalismo acabou se transformando em uma cultura de caserna, de inspiração de um positivismo desilustrado, dominado, em especial, pelos oficiais brigadianos, funcionários públicos e pela direita culturalmente limitada, líderes de legiões de "artistas" do lumpesinato.
Na fase espontânea, lúdica e telúrica do Tradicionalismo foi colocada uma canga disciplinadora, controladora, de obediência. Esse processo começou a ocorrer por volta de 1967, com a criação de um órgão centralizador. Ou seja, a fração militante conservadora do Tradicionalismo expressou a sua hegemonia na instituição do MTG como instrumento da Ditadura Militar. Nessa arreada, o Tradicionalismo transformou-se na "cultura oficial" do Rio Grande do Sul como expressão do poder e assumiu seu aspecto militantemente ideológico. Terminava qualquer inocência em seu interior.
A trilha sonora da tortura foi a música tradicionalista. Todo preposto da ditadura noPiratini teve um lacaio pilchado para servir o mate, assar o churrasco e animar a tertúlia. Cada quartel construiu seu galpão crioulo como eco desse tempo obscurantista, de tortura, de morte, de repressão e de controle popular, especialmente da alma e da sensibilidade.
Os "tradicionalistas" de alma castelhana (os subversivos estrangeiros), invariavelmente, foram proscritos.

IHU On-Line - O Manifesto contra o Tradicionalismo, do qual o senhor é um dos signatários, afirma que o Rio Grande do Sul é multicultural e que é ilegítimo e alienante todo movimento que impede e dificulta os desenvolvimentos culturais e estéticos. Reprimir os novos grupos da música popular gaúcha que se modernizaram e trouxeram novidades para dentro dos Centros de Tradições Gaúchas é, também, uma forma de dificultar o desenvolvimento de novas culturas e movimentos?

Tau Golin - Com o passar do tempo, o MTG conseguiu estabelecer um "cânone". Ao mesmo tempo em que oficializou procedimento, exerce uma vigilância e um controle nos aspectos artísticos e comportamentais. A motivação fundamental é o poder, o exercício e a demonstração de estabelecer o que pode, o que é "certo" ou "errado". Patrão tradicionalista é um ente da aparência, da pós-modernidade, tem que parecer-ser. No campo da moralidade, uma de suas bandeiras mais preconceituosas, com aqueles discursos mofados sobre a "família", do fio de bigode, do combate à opção sexual, é de uma hipocrisia vexatória. Ora, sabe-se que o seu próprio universo é formado pelas condições humanas; a rigor, esses discursos podem ser tapados pelo poncho tecido por suas folhas-corridas.
O núcleo fundamental do Tradicionalismo, do qual deve emanar o comportamento e a cultura, é a estância simbólica. A arte da elite era preferencialmente palaciana. Admitiam-se somente as expressões "aceitas". Na verdade, a oligarquia real era universal. O Tradicionalismo não é sequer uma extensão cultural da oligarquia, de cuja propriedade retirou seu ícone fundante. Ele é uma leitura equivocada, uma adoção ilusória de sua rusticidade. Sequer abagualada e xucra, pois isso poderia remeter para a insubmissão. Sequer o "gaúcho" possui um lugar na estrutura do CTG. Ali se encontram o peão, o agregado, o posteiro, o capataz, todas as figuras obedientes, atreladas ao mando da sede, do núcleo inquestionável do poder do patrão. Gaúcho remete à insubordinação, ao não confiável, à marginalidade, à ameaça à propriedade, ao comportamento incontrolável e, inclusive, abagaceirado.

IHU On-Line - Em suas pesquisas o senhor encontrou gaúchos que se utilizavam de adereços junto com a veste tradicional, algo que o MTG repreende e afirma ser algo apenas de uso feminino. Como o senhor vê essa "recriação" da tradição feita pelo MTG, sendo que a tradição e costumes eram diferentes? Por que o gaúcho que usa adereços é tão mal visto pelo MTG?
Tau Golin - O MTG é um movimento de defesa de uma moralidade conservadora, de uma idéia pastoril cristã de família. Tudo em sua volta se movimenta, cria novos comportamentos, novos modos de vida. Quase todo patrão ou tradicionalista possui filhosroqueiros, metaleiros, de opções alternativas, gostam e vivem de MPB, cultura latino-americana etc. Muitos tiram o brinco da orelha, desfazem as tranças, quando vão para o CTG. Outros negam a escolha dos pais. O tradicionalista é um ser fragmentado. Ele vive duas vidas. A real e a simbólica-militante, os espaços concretos e os da ritualidade. Ele vive em pesadelo constante. Entretanto, o fundamentalismo de muitos, invariavelmente, descamba na irresponsabilidade, inclusive com seus filhos. Sempre tem um piquete de estúpidos para agredir pessoas "fora do padrão", para achar que brinco ou outro adereço é coisa de "viado", de afeminado, alguém que precisa apanhar para aprender, o método da estupidez para converter à obediência – a chamada pedagogia da doma usada com animais.
Historicamente, os gaúchos usavam brincos, tranças, adoravam adereços, enfeitavam-se. Entre eles encontravam-se marinheiros e cavaleiros. Tinham diversas procedências e etnias. Trouxeram para a pampa, inclusive, muitos elementos da navegação. Na América, amestiçaram-se culturalmente,  indianizaram-se e acaboclaram. Ainda hoje, na península ibérica e em outros lugares do mundo, quando você encontrar um navegador com um brinco de argola na orelha, comece a desconfiar que em sua frente pode estar um indivíduo admirável, que praticou uma travessia excepcional, que enfrentou mares tenebrosos. É por isso que, quase sempre, você vai encontrar brinco em orelha de "homem feito", alguém com muita experiência e valentia, o qual recebeu aquele "adereço" por merecimento. Muitos colonos que vieram para o Rio Grande do Sul procediam de regiões européias em que o brinco era "coisa de homem" e aqui o ostentaram.
Mas, como disse, CTG não é lugar de gaúcho; é lugar de patrão e peão, de gente obediente, conformada e militante da ordem, mesmo que o sistema trate o povo como gaúcho e excluído.

IHU On-Line - De que forma o manifesto pode mobilizar o MTG? Como está sendo a recepção dele por parte dos gaúchos?
Tau Golin - O manifesto defende princípios republicanos. Ele esclarece à população que o MTG é uma entidade privada, mas que, colocando-se como "cultura oficial", invadiu instituições, domina espaços do governo e possui reservas vitalícias nos órgãos públicos. Além disso, arrecada considerável verba pública para os seus eventos. Invadiu a escola para converter os alunos ao seu culto, quando a educação republicanamente é o espaço do saber, do estudo. É por isso que o manifesto postula por uma CPI na Assembléia Legislativa. Defende audiências públicas: no Conselho de Educação, para discutir pedagogicamente a falência da escola pública provocada pelo cetegismo; sobre a influência das diretoras-prendas nos planos de ensino e a patronagem sobre os professores, com o desejo de transformá-los em preposto de CTG; no Conselho de Cultura, onde existe a aprovação de enorme quantidade de projetos de lazer e turismo tradicionalista para captação de verbas pela LIC. Além da usurpação direta, o MTG tem diversos subterfúgios para sua arreada das verbas e espaços públicos.
Por essas questões, o manifesto é, em seu conjunto, a defesa da cidadania, da democracia, das relações republicanas e da liberdade cultural. No extremo, representa um movimento da ilustração contra o fundamentalismo. Sua intenção é não deixar que um movimento de caráter privado usurpe as esferas públicas e atropele o civismo, ocupe o imaginário e substitua as identidades pelo "tipo gauchesco clubístico citadino" e o "legitime" como modelo regional hierarquicamente superior às contribuições das demais etnias. O manifesto, de certa forma, é sucedâneo a uma enorme literatura e posturas públicas já conhecidas, e que vem conseguindo fortalecer as particularidades culturais inter-regionais, demonstrando que o MTG é um movimento militante ideológico-cultural, cada vez mais fundamentalista e intolerante, que procura  converter-se em um poder dentro do Estado, invariavelmente pressionando, quando não elegendo governantes.
Muitas pessoas já se deram conta isso. Quase todas têm uma experiência para relatar. O próprio gauchismo tem procurado formas alternativas de associação, sem a necessidade de reproduzir a estrutura da estância escravocrata. Reúnem-se em piquetes, em centros de cultura gaúcha, em ciclos, em grupos etc. Cada vez é mais forte a percepção que tradicionalista não significa necessariamente gaúcho; e, muito menos, rio-grandense. Aliás, no mundo real da campanha, nas regiões de hábitos autênticos do povo concreto, mestiço, caboclo, interétnico etc., há um sentimento (e muitos o verbalizam) de que o tradicionalista, ao menos estilisticamente, é a carnavalização do gauchismo. Tem forte componente da indústria cultural, não necessita da experiência da territorialidade. Ele é uma agremiação estilística que, no seu limite, chega ao fundamentalismo. Escreveu alguns manuais encíclicos e pretende convertê-los em práticas litúrgicas da vida.

IHU On-Line - A cultura que o MTG defende é uma forma de retardar o desenvolvimento social do Estado?
Tau Golin - Sem dúvida. O "orgulho gaúcho" é completamente inútil para protagonizar a modernidade, apesar do próprio tradicionalista ser um ente pós-moderno, no sentido que postula uma identidade pela imagem e pelo culto ritualístico. A sua energia e militância, no entanto, cria um cenário dogmático. A população é inicializada cada vez mais cedo em seus rituais, na arregimentação de seu calendário de eventos, submergindo em uma cotidianidade cetegista escapista, numa incompreensão do mundo em que vive. Os espaços sociais são tensionados pela vontade aculturadora do tradicionalista militante, que luta para fazer do outro a sua projeção pilchada. Em sua catequese postula pilchar o Rio Grande e, no limite, o mundo. Atua em todas as esferas da existência, em especial, nas de formação de "consciência". Ele tem uma idéia de história baseada em heróis tutelares (em conseqüência, os heróis do estado, no geral, são senhores de escravos), tem uma concepção artística fechada, possui uma forma de religiosidade – o cristianismo pilchado e conservador. Na verdade, a missa crioula é uma ode ao mundo estancieiro. A propriedade foi sacralizada. O latifúndio, por sua extensão, é ressignificando como a "estância do Céu"; Deus, como o "Patrão celestial"; São Pedro, como o "capataz";Jesus Cristo, como o "tropeiro" que andou pela terra mangueirando o rebanho; e, Nossa Senhora, como a "prenda" disso tudo.
No conjunto, pode-se dizer que o MTG fortalece o dogmatismo. Essa "dureza" de pensamento se evidencia na sala de aula, na política, na cultura. Não existe nada pior do que o ignorante com "certezas" imutáveis. Praticamente é um insensível com o outro. O mundo é uma pirâmide, com o patrão no topo; e ele, psicologicamente, junto... O fundamentalismo é uma totalidade. No seu último congresso, o MTG adotou o projeto de fundar as suas próprias escolas de ensino fundamental e médio, além de uma universidade. É simplesmente assustador para a vida republicana.

IHU On-Line - O senhor acha que o MTG vive ainda como se estivéssemos sob o regime militar?
Tau Golin - Ele é o herdeiro de uma ordem ditatorial e transformou-se no desaguadouro do pensamento e das práticas de caserna. Digamos que existe uma disputa constante no interior do Tradicionalismo, porém o dogmatismo, o positivismo desilustrado e o espírito de caserna são hegemônicos e derrotou completamente aquele espírito paisano, de sociedade civil, que ainda se encontra no seu interior. Hoje, o MTG, ao menos no Rio Grande do Sul, possui um forte impulso militaresco; as pilchas já não são mais expressões da vestimenta civil, pois os CTGs andam uniformizados; e os piquetes parecem grupos militares ou de milicianos, invariavelmente ocorrendo escaramuças entre eles, em disputas inócuas, mas de intensa mobilização.

IHU On-Line - O gaúcho, mesmo o que não tem forte ligação com o movimento tradicionalista, comemora veementemente uma guerra que perdeu, a Guerra dos Farrapos. Como o senhor vê esse tipo de cultura inserida em nossa história?
Tau Golin - A Revolução Farroupilha é muito mais complexa e interessante do que as versões consagradas pelo Tradicionalismo. A noção dominante foi criada pelo movimento republicano na campanha contra a monarquia. Na luta pela proclamação da República, os farrapos foram usados como "exemplo" de um pretenso passado republicano. O autoritarismo castilhista colocou-se, por fim, como herdeiro dessa tradição, e, por meio da difusão educacional, disseminou-se a falsa visão de que os farrapos eram republicados e que o povo lutou ao seu lado contra o Império. Essa visão foi retomada no grande evento de 1935, comemorando o seu centenário. Na década seguinte, a primeira geração de tradicionalista escolheu entre os caudilhos farroupilhas os seus heróis e os disseminaram como lumes tutelares do Rio Grande, homens exemplares a serem seguidos.
Entretanto, com o desenvolvimento dos estudos históricos, comprovou-se que os farroupilhas constituíam três frações diferentes e, muitas vezes, antagônicas; não eram republicados, exceto uma minoria com idéias ainda muito vagas. A fração militar e majoritária, liderada por Bento Gonçalves era monarquista. Além disso, a maioria dos proprietários, inclusive os da terra, e o povo rio-grandense lutaram pelo Império, pela brasilidade. Ou seja, nunca houve um levante do Rio Grande do Sul contra o Império. Na verdade, o que ocorreu foi uma guerra civil; e, nela, os farrapos eram minoria e, além de tudo, não eram republicanos. A tão cantada República Rio-Grandense vivia quase sempre sobre carretas e em povoações ocupadas temporariamente.
Contra a historiografia universitária, o Tradicionalismo e a imprensa consagram uma ilusão, uma impossibilidade de conhecer o passado em sua riqueza e complexidade.

IHU On-Line - O manifesto pode, ou deseja, unir forçar e formar um novo movimento baseado na verdadeira história étnica e cultural do Rio Grande do Sul e, com isso, aceitar a inserção de novas culturas dentro dessa história?
Tau Golin - O manifesto é um texto de reflexão e denúncia. Seu núcleo elaborador não tem caráter militante. Ele se refere a uma violação da vida republicana pelo Tradicionalismo. Portanto, diz respeito às instituições do Estado e da sociedade civil. Do ponto de vista cultural e educacional, indica as implicações que a hegemonia e a influência do MTG possui nessas esferas, a sua forma seletiva, normatizadora, e excludente de elementos constitutivos da historicidade rio-grandense, além de pretender controlar a liberdade artística. Acima de tudo, o manifesto demonstra como um movimento de interesse particular, em um viés fundamentalista pilchado, opera no Rio Grande do Sul, selecionando, consagrando e reconhecendo as manifestações que comungam com sua visão de história, de cultura; e faz um alerta máximo: a destruição do patrimônio rio-grandense. Em suma, o manifesto condena a militância do Tradicionalismo para tutelar o povo, demonstrando a insustentabilidade histórica de sua pretensão usurpadora, ao mesmo tempo em que defende um processo de inclusão na historiografia e na cultura de participação e representação republicana de todos os segmentos sociais.
Em suma, o MTG é um problema contemporâneo e não da história.

Notas:
(1) Colégio Julio de Castilhos: Localizado em Porto Alegre, esta instituição de ensino é uma referência para a capital gaúcha. Conhecido como Julinho, a entidade formou autoridades políticas e personalidades importantes para o Rio Grande do Sul.

(2) Cezimbra Jacques: Considerado o primeiro historiador santamariense. Foi professor do Colégio Militar de Porto Alegre e lutou na Guerra do Paraguai. Participou da criação da primeira academia de letras do Rio Grande do Sul e foi um dos fundadores do Partido Republicano do Estado. Criou Grâmio Gaúcho de Porto Alegre, considerada entidade precursora da cultura gaúcha. É autor de "Ensaio sobre os costumes do Rio Grande do Sul" "Assuntos do Rio Grande do Sul", entre outros.

(3) Paixão Cortês: Formado em agronomia, o folclorista é um dos personagens mais importantes do movimento tradicionalista gaúcho, o MTG. Em 1947, junto de Barbosa Lessa inicia uma pesquisa para recuperar traços de cultura local. Foi o modelo inspirador para a estátua do Laçador, em Porto Alegre.

Links citados:

Historicamente, o Rio Grande é multicultural e multi-étnico. A íntegra do Manifesto contra o Tradicionalismo. 

O Movimento Tradicionalista Gaúcho em discussão. 'A missa crioula é uma ode ao mundo estancieiro' Entrevista especial com Tau Golin. Instituto Humanitas UNISINOS. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_entrevistas&Itemid=29&task=entrevista&id=6505

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

I Congresso Internacional de História Regional



O Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo realizará de 28 a 30 de setembro de 2011 o I Congresso Internacional de História Regional (I CIHR). O evento constitui um desdobramento dos Seminários de História Regional realizados pelo Núcleo de História Regional desde 2006 e terá como temática Mercosul: integração e desencontros.

O objetivo do I Congresso Internacional de História Regional é reunir pesquisas que gravitem em torno da História Regional e, particularmente nesta edição, da temática referente ao Mercosul e às experiências de integração. Marco fundador do Mercosul, o Tratado de Assunção foi assinado em 1991 e desde aí a proposta de integração passou por avanços e recuos. Vinte anos depois tal realidade instiga muitas questões que merecem reflexão.

Maiores informações em: http://www.upf.br/historiaregional

domingo, 18 de setembro de 2011

18 de setembro de 1950: Inauguração da PRF 3 TV Tupi de São Paulo



quarta-feira, 14 de setembro de 2011

TVE exibe especial sobre o Massacre de Porongos

A TVE  apresentou nesta terça, 20/09/11 o especial sobre o Massacre de Porongos . No programa foi abordado o genocídio sofrido pelos negros da Infantaria Farroupilha, que foram desarmados e mortos no Cerro dos Porongos, em Piratini, no dia 14 de novembro de 1844, pouco antes do fim da Guerra dos Farrapos.

Foram convidados para falar sobre o assunto os historiadores Moacyr Flores, autor do livro Negros na Revolução Farroupilha – Traição em Porongos e farsa em Ponche Verde, Juremir Machado da Silva, autor do livro História regional da infâmia - O destino dos negros e outras iniquidades brasileiras (ou como se produzem os imaginários), e o diretor técnico do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF) Cláudio Knierim, que fala sobre a contribuição dos negros para a formação da identidade do gaúcho.Os acontecimentos envolvendo o Massacre de Porongos não estão registrados na chamada história oficial. Durante a Guerra dos Farrapos, uma das tropas, que era composta por escravos, foi assassinada em função de um acordo de paz entre o Barão de Caxias, representante do Império, e o líder republicano David Canabarro.O especial sobre o Massacre de Porongos tem apresentação de Alan Barcellos e direção de Vera Cardozo.

A Acessora de Comunicação Social da Fundação Cultural Piratini,  a Anahy Metz, informa que o programa será reprisado neste domingo, 25/09, às 22h30min.

Fonte: Assessoria de Comunicação Social - Diretoria de Marketing Cultural da Fundação Cultural Piratini - Rádio e Televisão