terça-feira, 28 de maio de 2013

Desabafo de um velho professor


Hoje, 31 de agosto de 2050, ao ver este sol que bate em minha janela, recordo-me do meu primeiro dia de sala de aula. 

Tinha os meus 21 anos, ainda acreditava na mudança das mazelas deste país. Adentrava naquele ambiente com o ar de alegria, emoção e convicção de como bom soldado, sabia que a missão era o de ser o transformador de uma sociedade. 

Os anos se foram e eu fui perdendo o meu brilho, a espontaneidade em ultimo momento a esperança foi me arrancada como se faz com uma erva daninha. Ano após ano, vi mandos e descomandos na educação deste Rio Grande do Sul. Projetos mirabolantes que não redundaram em nada. 

Vi promessas, risos e lágrimas. Sim! Lágrimas de alunos que ao concluírem o seu Ensino médio, vinham me agradecer, alunos que consolei, colegas que precisei dar o ombro para os seus choros mais clamorosos. Vi também muitos colegas que ao assumirem a direção mudarem de postura, colegas que esqueciam que eram antes de mais nada professores. 

Infelizmente presenciei descontroles, ânimos acirrados, ofensas... Isso sem falar das mesmas e exaustivas formações de professores, ao qual quase nunca redundavam em aproveitamento prático no meu fazer pedagógico. 

O tempo este inexorável vilão de quem só passa pela vida, me trouxe uma amarga notícia: hoje no dia de me aposentar, percebi que lutei contra as injustiças, ensinei aos meus alunos que estes deveriam ter consciência de seus direitos, tenho o dever cumprido, mas ao lado deste sentimento tenho a certeza que deveria escrever aos homens de minha juventude que é preciso olhar a educação com mais respeito!

Respeito, a palavra chave para a escola. Hoje em dia, em plena metade do século XXI, ainda há pais que repassam as suas responsabilidades a nós docentes, traficantes que ficam a espera dos alunos, diretores que esqueceram que são professores, comunicadores que vão sem contra nós professores. De fato, hoje a tecnologia impera, mas ninguém pode esperar que computadores desempenhem a função de um educador.

Recordo-me de um texto de uma prova de concurso, em que o texto de Língua Portuguesa era quase que uma afronta aos professores, ao tratar dos motivos dos docentes não gostarem da leitura. Me lembro que a reprovação foi altíssima e o governador da época Sr. Tarso Genro disse que isso demonstrava o péssimo nível dos profissionais docentes.

Me lembro que este mesmo governador se negou em pagar o Piso do Magistério, alegando que o Estado não tinha dinheiro, mas que gastou milhões em tablets que se tornaram em seguida obsoletos e em propaganda do seu governo.

Depois dele vieram outros tantos que se elegeram dizendo que iam lutar pela Escola, mas que de prático, pouco fizeram. 

Hoje liguei o meu velho MP3, e uma pergunta estava lá na voz do Renato Russo: “Que País é esse?” Pergunto que país é esse que não respeita o primeiro de todos os profissionais: nós professores. Não lutei só para aumento salarial, também sonhei de forma utópica: o dia em que o Respeito se fizesse presente em todas as relações na escola. Que o bom senso estivesse com todos e que a sociedade reconhecesse a nossa real relevância.

Hoje, no dia que encerro as minhas funções: digo que valeu a pena ser professor, mas precisamos ter mais Respeito, ser mais valorados. Queria ver o Brasil melhor e ainda só vejo uma saída: educação. Só com ela é que podemos superar as nossas mazelas. Só um povo educado não vota em quem retira direitos, não cumpre com a sua palavra. Para isso é preciso respeitar os seres humanos que aceitam o desafio de serem professores.

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