segunda-feira, 24 de junho de 2013

Os tempos da História

Prof. Dr. Eduardo Marques da Silva


Aqui se tem a sensação que vivemos um eterno festival de síndromes. Surpreendentemente diríamos que presenciamos sempre o acometimento da verdadeira Síndrome de Chalaça ou mesmo que tudo decorresse da conhecida Síndrome de Peter Pan ou ainda que fosse um significativo sinal permanente das síndromes de que estamos sacudidos. Basta observarmos com mais atenção o nosso panorama político parlamentar que podemos constatar que a nossa luta é de vivermos "expurgando formatações". Tais síndromes são repetitivas e se renovam na nossa burguesia e nos comportamentos de nossa classe média!

Pobre Brasil, que de tanto querer se fazer passar por Brazil, com seu desenvolvimento para fora, como afirmaram Pedro Paes e O. Sunkel, não se deu conta ainda de seu tempo de duração escravista nos ombros. Parece que tudo aconteceu, como ainda acontece, em sono profundo, letárgico, como num nirvana. Pois também parece que se esqueceu de observar que quatrocentos anos de chicote & pelourinho não foram suficientes para que se aprendesse que tratando os oriundos de nossa escravidão, agora mergulhados na pós-escravidão, tenham se convertido na atualidade em corpos calados (Malaguti, 2004). Busca desastrosa e desesperadamente uma sobrevida que o retire do quadro complexo que lhe atribuiu o seu multiculturalismo.

Sabemos da possibilidade de mapear o perfil comportamental de um determinado segmento social, mesmo se não for considerado segmento social oficialmente e apenas seja considerado grupo ou corpos sociais e socioculturais, calados e contestatoriamente autônomos, pela urbanidade da modernidade. Sofremos de uma síndrome de início de cegueira catastrófica no tempo presente ou de seus elementos mais perniciosos.

Podemos mapeá-los pelos poderes derivados de seus comportamentos sociais através de signos registrados na linguagem, através das suas palavras, com a contribuição recente na academia dada por Jean-François Lyotard (1988).

Arthur Charles Clarke, escritor de ficção científica, disse em entrevista que "Pode ser que nosso destino neste planeta não seja adorar a Deus, mas sim criá-lo". E isso nos faz pensar, pois concepções de Deus >variam tanto de uma pessoa para outra que não há claro consenso sobre a natureza de divindade existir. “Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós!”, afirma Clarke. Nós seriamos os algozes dos algozes da divindade.

Não teremos de nos tornar a nós próprios deuses para parecermos dignos do todo-poderoso, como afirmaClarke. Nunca existiu ato mais grandioso na face da Terra, e quem quer que nasça depois de nós certamente passará a fazer parte, entregue a este, de uma história superior a toda história até hoje(Friedrich Nietzsche.

O primeiro registro histórico de divindade data do período Paleolítico, estendendo-se ao Neolítico ou civilizacional. É quando se acredita que tenha surgido um sentimento humano de vínculo com algo maior do que o próprio Ser, a Terra e a Natureza, os Ciclos e a Fertilidade. A adoração da Deusa mãe, a Mãe Terra ou Mãe Cósmica se estabeleceu como a primeira religação divina, religião humana. Em torno desse sentimento se formariam ‘sociedades matriarcais’, todas centradas na ‘imagem feminina’, talvez pelo ‘poder de concepção’. Os hebreus da Mesopotâmia foram os primeiros a chamar esta Deusa Mãe de Pai e, ainda que masculinizassem a ideia básica de família e continuidade da vida, sua sociedade não era efetivamente patriarcal. Segundo Joseph Campbell, o patriarcalismo surgido com os hebreus se deveu à atividade belicosa de pastoreio de gado bovino e caprino e às constantes perseguições religiosas, que desencadeavam o nomadismo e a perda de identidade territorial. Podemos ver, segundo Braudel, as transformações, conforme suas ferramentas metodológicas de classificar períodos e fatos na história

História e ciências sociais: a longa duração

Para Braudel, há uma crise geral das ciências do homem, todas esmagadas sob seus próprios progressos, devido à acumulação dos novos conhecimentos e da necessidade de um trabalho coletivo. Direta ou indiretamente, todas são atingidas, mas permanecem às voltas com um humanismo retrógrado, insidioso. Preocupam-se com seu lugar no conjunto monstruoso das pesquisas antigas e novas, cuja convergência hoje se adivinha. As ciências do homem sairão dessas dificuldades? Talvez tenham a ilusão disso, pois no risco de voltar a falsos problemas ei-las preocupadas em definir metas, métodos e suas superioridades, como isoladamente Lévi-Strauss, na Antropologia Estrutural, rumo aos procedimentos da Linguística – horizontes da história “inconsciente” e o imperialismo juvenil das matemáticas qualitativas. Uma ciência que ligaria a ciência da Comunicação, a Antropologia, a Economia Política, a Linguística, mas a própria Geografia se divorciaria da História! A História, a menos estruturada das ciências do homem, aceita todas as lições de sua múltipla vizinhança. As outras ciências sociais, mal informadas da crise dos anos 1940 a 1960, preferem desconhecer.

“Nos trabalhos dos historiadores, um aspecto da realidade social do qual a história é boa criada, hábil vendedora: essa duração múltipla e contraditória da vida do homem não é apenas a substância do passado, mas o estofo da vida social atual”, uma razão a mais para assinalar a utilidade da História ou da dialética da duração, tal como ela se desprende da observação repetida do historiador, pois nada é mais importante, no centro da realidade social, do que essa oposição viva, repetida indefinidamente entre o instante e o tempo. A história se ilumina com uma nova luz: de experiências e tentativas recentes desprende-se uma noção precisa da multiplicidade do tempo e do valor excepcional do tempo longo: a história das cem faces deveria interessar às ciências sociais, vizinhas.

A História de curta duração, como se dizia no século XVI, enche a consciência dos contemporâneos, mas não dura. O homem se incorpora e depois redescobre a vontade ou o tempo curto da vida cotidiana, das ilusões, das rápidas tomadas de consciência – o tempo, por excelência, do cronista, do jornalista.

O passado é essa massa de fatos miúdos, brilhantes, obscuros ou repetidos. Fatos que constituem o despojo cotidiano da Microssociologia ou Sociometria. A política não é forçosamente ocorrencial nem é condenada a sê-lo. Os historiadores dos séculos XVIII e XIX haviam estado mais atentos às perspectivas da longa duração que a seguir somente grandes espíritos, comoMichelet, Ranke, Jacob Burckhardt, Fustel de Colange souberam redescobrir. Todo trabalho histórico decompõe o tempo decorrido. A história tradicional, atenta ao tempo breve, ao indivíduo, ao evento, habituou-nos à sua narrativa precipitada, dramática, de fôlego curto.

A História de média duração é o tempo conjuntural. Uma estrutura é a arquitetura de uma realidade que o tempo utiliza mal e veicula muito longamente. Algumas realidades, por viverem muito tempo, tornam-se elementos estáveis de uma infinidade de gerações: atravancam a história. A nova história econômica e social põe no primeiro plano de sua pesquisa a oscilação cíclica e assenta sobre sua duração. Hoje, ao lado do relato, há um recitativo da conjuntura que põe em questão o passado por largas fatias: dez, vinte ou cinquenta anos.

As mentalidades são posições de longa duração, os quadros mentais também. A dificuldade é discernir a longa duração no domínio em que a pesquisa histórica acaba de obter seus inegáveis sucessos. Dos séculos XIV a XVIII, até por volta de 1750, a circulação viu o triunfo da água e do navio, os surtos de progresso europeu. Situa-se uma história de amplitude secular. A longa duração se apresenta como um personagem complicado, amiúde inédito. Para o historiador, ocultá-lo é prestar-se a uma mudança de atitude, a uma alteração de pensamento, a uma nova concepção do social. É em relação a essas extensões de história lenta que a totalidade da história deve ser repensada, a partir de uma infraestrutura.

Todos os milhares de estouros do tempo da história se compreendem a partir dessa semi-imobilidade. A história é a soma de todas as histórias possíveis, uma coleção de misteres e de pontos de vista, de ontem, hoje e amanhã. O único erro seria escolher uma dessas histórias com a exclusão das outras. Trata-se de definir uma hierarquia de forças, de correntes, de movimentos longos e impulsos breves tomados de suas fontes imediatas, de um tempo longínquo. Cada atualidade reúne movimentos de origem, ritmos diferentes: o tempo de hoje data o de ontem, de anteontem etc.

O caminho até a globalização

Segundo Hobsbawm, o começo da globalização pode ser encontrado na chamada Era da Catástrofe, de 1500, quandotudo mudou, desencadeando o fenômeno conhecido como globalização.

Otomanos desembarcaram em Otrento, às portas de Roma, reativando as messiânicas crenças milenaristas e expulsando Veneza do comércio mediterrânico oriental. O império otomano domina o mediterrâneo oriental. Otomanos ameaçam o coração da Europa. Afirmava-se como a primeira potência naval do mediterrâneo oriental. Florença aproveita-se da guerra dos otomanos contra Veneza para obter privilégios comerciais. Otomanos exercem atração sobre os excluídos da cristandade ocidental.

Os lusos estabeleceram a comunicação entre Europa e a África e depois com a Ásia, cuja relação foi obra dos ibéricos. Graças a eles e aos predecessores judeus e árabes, a globalização também se estabeleceu com formas de comunicação distintas pelos algarismos e o cálculo astronômico. A conjuntura mundial em toda parte favorecia a expansão ibérica. A chegada de Cabral à costa do Brasil marca a data na história da astronomia ocidental. As expedições ibéricas inauguraram de outra forma o processo de globalização: aceleraram e intensificaram os contatos com as populações distantes.

Na América, chegou ao auge o império mexicano (Astecas) no reinado de Ahuitzoth. Houve então a sucessão no império mexicano. Morreu Ahuitzoth e seu sobrinho Montezuma o sucedeu, levando o império ao seu apogeu. Seria também a testemunha e a vítima da invasão espanhola em território mexicano. Espanhóis chegaram à América e reconquistaram Granada, na terra Ibérica. Nativos da América tomaram conhecimento da presença de europeus (desconhecidos) no Caribe. Espanhóis concluem a reconquista de Granada em terra Ibérica, mas de jeito nenhum a luta contra o Islã.

Com as conquistas portuguesas (Orã), espanholas (Trípoli), percebe-se que os ibéricos, no início do século XVI, concretizam o estrangulamento do Islã. Com a conquista da Malásia, os portugueses se estabelecem no sudoeste da Ásia. A primeira expedição espanhola só tocou a costa do México em 1517. No México como nos Andes, as previsões de uma destruição garantiam que as sociedades antigas tinham de fato previsto a conquista, embora não pudessem impedi-la, e que a derrota seria inevitável.

Referências

HOBSBAWM, E. J. Bandidos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1976.
LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. 2ª ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1988.

MALAGUTI, Vera. Rio de Janeiro: a cidade do medo. Rio de Janeiro: Revan, 2004.

SUNKEL, O. Desenvolvimento, subdesenvolvimento, dependência, marginalização e desigualdades espaciais: por um enfoque totalizante. In: BIELSCHOWSKY, R. (org.). Cinquenta anos de pensamento na CEPAL. Rio de Janeiro: Record, 2000.

SUNKEL, O. Um ensaio de interpretação sobre o desenvolvimento latino-americano. Rio de Janeiro: Difel/Fórum, 1975.

Publicado em 20 de abril de 2010 no site Educação Pública vinculado à Secretaria Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro.  Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/historia/0085.html

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