quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Goulart poderia tornar o Brasil socialista?

Imagem: Leonel Brizola no Discurso de Jango
em 13 de março de1964 na Central do Brasil no RJ
Fonte: Reprodução Blog Brasil Recente

Por Carlos Fico

Na última enquete do Brasil Recente, perguntamos se havia o risco de o Brasil se tornar socialista em 1964: o golpe foi “preventivo” ou a alegação foi apenas uma desculpa para derrubar Goulart? Para a ampla maioria (76%),  isso foi um mero pretexto.

De fato, a retórica anticomunista já era antiga no Brasil em 1964. Ela se tornou mais agressiva depois dos levantes comunistas de novembro de 1935. Naquela época, a existência de células comunistas nos quartéis e a presença no Brasil de membros do komintern deram concretude ao discurso anticomunista, que perduraria mesmo depois, quando as iniciativas comunistas debilitaram-se.

A referência à chamada “intentona comunista” de 1935 esteve presente em todo o regime militar. Na verdade, as comemorações do Exército sobre a derrota dos levantes de 1935 mantiveram-se até o governo de Fernando Henrique Cardoso, assim como a celebração do golpe de 1964 só foi desautorizada meses atrás, pela atual presidente Dilma Rousseff.

Goulart não era comunista e, na verdade, poucos o acusavam disso. Entretanto, muitos pensavam que o presidente pretendia perpetuar-se no poder além do prazo constitucional, o que seria um golpe. Após isso, por sua suposta fragilidade política, Goulart acabaria controlado pelos comunistas. Esta era a versão, por exemplo, que a embaixada dos EUA sustentava em seus documentos.

Assim, o golpe de 1964 teria sido um “contragolpe preventivo”, para evitar o “golpe” de Goulart. Curiosamente, esta tese é defendida tanto pelo coronel Jarbas Passarinho – ministro de Costa e Silva, da junta militar, de Médici e de Figueiredo que aprovou o AI-5 com a famosa frase “às favas os escrúpulos de consciência” –, quanto pelo historiador Jacob Gorender – fundador do PCBR – para o qual os golpistas tinham sobradas razões para agir “antes que o caldo entornasse”.

A tese é difícil de sustentar pelo menos por duas razões.

Em primeiro lugar, ela é anacrônica, já que especula sobre algo que não aconteceu: o golpe foi dado, efetivamente, não por Goulart, mas pelos militares e pela elite política civil com o apoio da imprensa, da classe média, da igreja católica e outros setores.

Em segundo lugar, não existem evidências empíricas indiscutíveis de que Goulart estivesse planejando um golpe. Ele fez alguns discursos radicais a partir de 1963, bem como Brizola, seu cunhado, que falava em ultrapassar o Congresso em favor das reformas de base. Isso é muito pouco.

O argumento de Gorender é mais sofisticado: entre  1960-1964, o Brasil teria assistido ao “ponto mais alto das lutas dos trabalhadores brasileiros neste século” e, entre 1963 e 1964, teria havido uma aglutinação das forças que configurou uma “situação pré-revolucionária”. Entretanto, nem a dinâmica social (marcada, de fato, por muitas greves e atividade político-sindical), nem o fermento revolucionário foram capazes de impedir o golpe da direita: não houve resistência alguma. Se as coisas estivessem tão inflamadas, poderia ter havido uma reação da parte dos trabalhadores, dos estudantes ou de qualquer outro setor da esquerda, mas não houve nada.

A idéia do “contragolpe preventivo” serve para justificar o golpe de 64. Goulart foi deposto porque introduziu na agenda política temas como a reforma agrária, a habitação popular, o analfabetismo e a reforma universitária. Ele deu a impressão de fomentar conquistas populares demasiado amplas que, aos olhos de setores da elite, poderiam levar à radicalização da democracia. No contexto da Guerra Fria e sob o influxo do anticomunismo, isso pareceu intolerável.

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