sexta-feira, 14 de junho de 2013

Maio de 68 e a ruptura de paradigmas

Ana Lucia Pinto de Almeida

1968 foi um ano marcante, paradigmático, transformou as relações sociais e propôs novos modelos de convivência no mundo, buscando mais igualdade, mais justiça, direitos humanos e maior veracidade nas relações sociais de modo geral. É um ano com tamanha intensidade e diversidade de acontecimentos mundiais que, ao chegar ao fim, o homem terá ido à lua, Robert Kennedy terá sido assassinado, e também Martin Luther King, a guerra do Vietnam será perdida por oposição interna sendo acompanhada de perto pelo mundo inteiro através das primeiras transmissões via-satélite, bem como os protestos contra essa guerra.

Os movimentos da juventude eclodirão em diversas partes do globo com diferentes motivações, em alguns lugares serão conhecidos como contracultura, mas tendo como ponto de convergência o questionamento de valores que não mais davam conta da sociedade, sendo, ao mesmo tempo, um movimento estudantil, uma revolta de pequenos grupos, uma crise social, uma greve como jamais havia ocorrido, uma crise política e, finalmente, a libertação da palavra (quase uma catarse coletiva).

A juventude clamava por mudanças nas estruturas sociais amparada, entre outras, pela Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. Uma grande leva de jovens havia chegado às universidades, a primeira geração de universitários após a Segunda Guerra. Capacitados para o debate e fortalecidos com um olhar crítico, esses estudantes começam a se perguntar o porquê da estrutura vigente e, mesmo sem um caminho claro a ser percorrido para minimizar as desigualdades sociais, estão cientes de seu papel transformador.

Começa uma época de denúncias contra o sistema, Herbert Marcuse (1898- filósofo frankfurtiano autor de Idéias para uma Teoria Crítica da Sociedade e o Homem Unidimensional) assume a luta estudantil engajando-se e cumprindo importante papel nas investidas contra o establishment (sistema político estabelecido). Reconhecido como ativista político, foi professor de Ângela Davies, uma filósofa, militante dos Panteras Negras e do Partido Comunista Americano, transformou-se no ícone intelectual da chamada contracultura ao popularizar a tese de que a sociedade capitalista se vale da repressão do prazer e da agressividade para consolidar e manter seu domínio sobre os homens. Em Eros e Civilização (1955) o autor conciliará conceitos de Marx com a teoria freudiana de repressão da libido para mostrar como o homem moderno tem pouco prazer no trabalho e como essa perspectiva, em nada lúdica ou erótica, canaliza a libido para o trabalho alienado.  

Uma parte do movimento estudantil apoiava-se na tese marcusiana da nova esquerda, na qual os agentes históricos transformadores da sociedade não são apenas o proletariado, mas também, os jovens e excluídos de modo geral da sociedade burguesa, capitalista. Outra parte do movimento liga-se às teses freudianas que explicam o mal-estar da civilização, tornando o filósofo popular entre os jovens de toda a parte que lutavam por uma maior liberdade sexual.

O pensador assume a reflexão sobre a liberdade e seu pensamento torna-se polêmico na medida em que a ele está atrelada uma prática política. Ao mesmo tempo é possível observar certo constrangimento já que, para Marcuse, seu ativismo político ainda está centrado no âmbito das ideias e não na necessária revolução: “Oponho-me principalmente à justaposição do meu nome e da minha fotografia com as de Che Guevara, Debray, Dutschke etc. Porque estes homens arriscaram e arriscam verdadeiramente as suas vidas no combate por uma sociedade mais humana. Enquanto eu apenas participo com ideias e palavras” (L’Express, setembro de 1968).

Subsidiados pelo modelo crítico, os estudantes franceses entram em conflito com a polícia para garantir a manutenção de alguns direitos nos Campus universitários ampliando o conflito para a discussão da rigidez da disciplina e dos currículos, e contra o modelo tradicional e obsoleto de academia. Os conflitos iniciam na Universidade de Nanterre (oeste de Paris), em 23 de março. Os jovens criam slogans como ”É proibido proibir”, “O poder está nas ruas” e “A imaginação no poder”. Estas palavras de ordem e de denúncia, de descontentamento e de liberdade ecoarão por todos os cantos, em um efeito cascata, convocando a juventude de toda a parte a criar e compartilhar uma possibilidade libertadora de mundo, onde os Direitos Humanos (proclamados pela ONU em 1948) sejam respeitados, bem como as diferenças individuais e os sonhos de cada um.

Entre três e 30 de maio, as ruas do Quartier latin (bairro de estudantes e intelectuais em Paris) serão transformadas em uma imensa praça de guerra. As mobilizações estudantis arrancam os operários de sua letargia e estes se engajam na luta por reformas na política francesa. Os ideais da Revolução parecem, novamente, fazerem sentido.

Em 18 de maio, os estudantes convocam uma greve geral, e cerca de dez milhões de pessoas cruzam os braços por três dias. A noite mais violenta do conflito é a de 24 de maio onde a polícia, chamada para intervir desde o princípio, responde às pedradas dos estudantes com bombas de gás lacrimogêneo e espancamento generalizado.

O então presidente francês, general Charles de Gaulle, retira-se para a Alemanha e ao retornar propõe aumento salarial de 35% ao operariado, retomando, em parte, o controle da situação. Os líderes estudantis são Daniel Cohn-Bendit, seu irmão Gabriel e Tiennot Grumbach, esses estudantes provinham de linhas trotskistas e stalinistas e foram às portas de grandes fábricas como a Renault convocar os operários para suas manifestações, assim, em um primeiro momento encontramos uma interlocução entre os jovens intelectuais e os jovens operários. Particularmente, o episódio Renault deixa sua marca por um fato inusitado, a Internationale é cantada pelos operários dentro a fábrica e estes após deliberação coletiva, entram em greve.

Na América, Malcolm X e Martin Luther King expõem a indignação com o fato dos convocados para a guerra do Vietnam serem, em grande maioria, das camadas mais pobres, da população negra. Martin Luther King entrega-se a uma contestação pacífica, lutando através dos meios políticos pelos direitos civis dos negros, mas é assassinado em quatro de abril. Em seu lugar, assumindo de forma não pacifista essa luta, temos os Panteras Negras, um grupo rebelde que entra em conflito com os brancos e com o governo proclamando o poder negro. Os contestadores mais brandos desse grupo exigiam o ingresso da história dos negros americanos nos currículos escolares e acadêmicos. É interessante observar que no Brasil, recentemente, tivemos essa mesma luta e hoje as escolas devem trabalhar a história do negro por dentro da disciplina de história nas escolas. Será que isso ocorre?

Tanto Martin Luther King como Malcolm X descortinam a discussão em torno da questão racial na América, recuperando a importância do papel do negro para o desenvolvimento da sociedade americana, expondo sua condição de indigência, repudiando a segregação racial (e todos os movimentos separatistas). Com a luta pela valorização da cultura negra, todos são lembrados da existência do “invisível”, ou seja, do preconceito e da discriminação sofridas pelos negros. Seguimos nesta caminhada.

No Brasil foi necessário um Estatuto da Igualdade Racial para proteger aqueles que, ainda hoje, quarenta anos depois, sofrem preconceito ou discriminação em função de sua etnia, raça e/ou cor. A lei 3.198, de 2000, discorre sobre as penalidades sofridas por aqueles que não respeitam o outro como alteridade e como diferente.

Em 1968 a sociedade é cutucada. Os movimentos feministas espalham-se ganhado fôlego, força e aliadas de peso. As mulheres saem às ruas levantando bandeiras contra a submissão, contra o preconceito no mercado de trabalho, contra o papel exigido e oferecido à mulher como única opção: do lar, organizando a trivial e pacata vida doméstica.

As bandeiras feministas tremulam ainda por ideais maiores: o fim da guerra do Vietnam, direitos humanos, liberação sexual, enfim são muitas bandeiras carregadas pelos movimentos. Algumas de forma tranquila, modificando o seu entorno. Outras de forma radical, extremista, transformando uma luta legítima em uma cópia do mundo machista: cometendo os mesmos erros de discriminação com a população masculina.

A luta pela liberdade de expressão, pela publicação da palavra feminina, já vinha sendo travada por diversas escritoras que não conseguiam editoras para seus trabalhos, já que estas davam prioridade aos escritores. Deste modo, nublavam toda uma concepção de mundo, eliminando do universo escrito o ponto de vista feminino sobre diversas questões que poderiam propor alternativas ou, em parte, explicar de outro modo os problemas existentes.

A mulher é oprimida também enquanto produtora de conhecimento e significados sobre o mundo. E se hoje uma mulher escreve e assina este artigo isso se deve a gerações inteiras de mulheres que brigaram contra a tendência estabelecida e se colocaram como seres humanos capazes de reflexão séria sobre o mundo.  Algumas, como Maya Angelou, descrevem suas lutas como mulheres e negras, vítimas da segregação racial na infância, outras como Simone de Beauvoir necessitaram libertar-se da sombra de companheiros já reconhecidos como grandes intelectuais.

Simone de Beauvoir será considerada um ícone do movimento feminista. Elizabeth Bishop, escritora americana que viveu no Brasil durante quinze anos, teve que dar explicações sobre suas escolhas sexuais, visto que no Brasil morou por longo tempo com uma amiga. Sua companheira Lota de Macedo Soares suicidou-se em 1967. Bishop foi a primeira mulher e a primeira americana a receber, em abril de 76, o Prêmio Internacional Neustadt de Literatura.

A descrição da luta dessas e de outras mulheres escritoras encontra-se no livro Escritoras e a arte da escrita, uma compilação de entrevistas publicadas no Brasil pela editora Gryphus, em 2001. Estava atualizada a discussão sobre gênero. É sempre importante lembrar que ainda precisamos ajudar muitas mulheres pelo mundo a alcançar a liberdade de expressão e o respeito por ser mulher (as mulheres do Oriente Médio, por exemplo), esta ainda é uma bandeira.

A velha sociedade balançou por alguns momentos. Ser questionada tão amplamente em um período tão curto causou uma desacomodação imensa. É compreensível que até os dias de hoje vivamos seus desdobramentos. As questões lançadas foram muitas, todas na tentativa de melhorar a qualidade de vida do maior número de pessoas, de garantir uma mínima igualdade de participação política e de inclusão de uma parcela cada vez maior da sociedade em uma vida mais prazerosa e menos alienante.

Em janeiro, na cidade de Praga, Tchecoslováquia, Alexander Dubcek planeja um modo de constituir uma sociedade comunista e democrática, tentando uma modernização da política do país ainda stalinista. Dubcek pretendia eliminar o autoritarismo e manter o estado comunista. Como slovaco tinha uma maior liberdade para viajar, o que lhe proporcionou um contato com as ideias ocidentais. Acaba por levar a discussão sobre as desigualdades sociais e os direitos humanos para Praga.

O movimento é nomeado por ele mesmo de Primavera de Praga, referindo-se à duração dos protestos e à implementação das reformas. A imprensa adquire uma liberdade nunca antes concedida em nenhum país socialista. Esta liberdade acaba por denunciar as práticas perversas e autoritárias, bem como a corrupção, de alguns líderes do Partido Comunista. Podemos compreender que tais medidas, embora de desejo da população, foram repudiadas com veemência pela União Soviética. Também lá as palavras de ordem e os slogans aparecem, em um deles poderia se ler “O circo russo chegou à cidade. Não alimente os animais”; numa clara manifestação de repúdio à invasão da Tchecoslováquia pelas tropas Russas, cumprindo ordens do Partido Comunista.

A população tenta ser pacífica, deitam-se em frente aos tanques para impedir-lhes o avanço e noticiam ao mundo o que está ocorrendo através de transmissões de rádio. Nada disso surte efeito, a Primavera de Praga chega ao fim. O Partido Comunista via nas ideias inovadoras de Dubcek uma provável queda do socialismo, perda de hegemonia e de privilégios alcançados pela alta cúpula do Partido. As reformas propostas foram parcialmente efetuadas com o governo de Mikhail Gorbachev – Perestroika – em 1987.

No Brasil, comandado pela ditadura militar, o ano de 68 se encerra com o fechamento do Congresso Nacional e o ato institucional número cinco, o (im) popular AI5. Os universitários, sentindo-se convocados pelo clima de mudanças do mundo, abraçam suas causas e encontram no regime ditatorial e nos militares seus principais inimigos.

Aqui também temos o surgimento de slogans, alguns nossos, outros importados como: “É proibido proibir”, transformado em letra de música por Caetano Veloso (um então estudante de filosofia, baiano, com muitas ideias na cabeça) e apresentada em festival universitário, levando-o a prisão três meses depois; “Não confie em ninguém com mais de trinta anos”, referindo-se aos grandes ídolos da juventude do momento, todos com menos de trinta anos; “Abaixo a ditadura!”, pichado no muro de um prédio da USP e reproduzido até hoje em diversos outros muros e sob diferentes contextos; e outros tantos, momentaneamente esquecidos, mas ideologicamente incorporados por aqueles que ainda sentem-se no Brasil motivados para a luta contra o establishment.

A população estudantil brasileira em 1968 era numerosa e qualificada, muitos intelectuais, escritores, músicos e alguns políticos de hoje pertencem a essa geração, uma geração que queria mudar o mundo. Gilberto Gil é um deles. Preso no Natal de 68, com Caetano, Gilberto descreve a sua vivência da prisão do seguinte modo: “Até então, na minha vida, nunca tinha sofrido o problema da supressão da liberdade física e psíquica. Ela significava primeiro que eu estava sendo tirado do meu espaço geral para uma prisão mesmo, e depois porque aquilo era uma sanção ao meu pensamento, a minha atitude, era uma coisa contra os limites de expansão da minha condição psíquica” (Folhetim, agosto de 1977).

No ano seguinte, Gil, Caetano e outros intelectuais e artistas brasileiros buscam asilo no exterior temendo pelas condições de censura imposta pelo governo militar. Assim o pensamento brasileiro se empobrece, embora muitos continuem a refletir sobre situação do país, mesmo estando longe. Mas ocorre uma quebra na produção científica, difícil de ser retomada. O que equivale dizer que a ditadura atrasou a maioridade intelectual brasileira, pois esvaziou o processo de conhecimento de suas principais vozes e calou aqueles que ousaram permanecer por aqui.

A luta contra o sistema ainda continua, sob outras formas, ela se mantém, talvez como necessidade do próprio sistema. Talvez Fukuyama esteja correto ao afirmar que o homem capitalista é o último homem.

Como é “natural” do capitalismo, as contradições são assumidas como parte do movimento, logo tudo está acomodado. Foi assim com a contracultura, foi assim com o movimento punk, assim ocorreu com as filosofias revolucionárias e de denúncia, com as lutas estudantis, com as revoltas juvenis, com a ansiedade e a esperança de gerações inteiras de jovens que com muita fé no homem e na vida tentaram modificar a estrutura da sociedade burguesa.

As contradições só se tornam claras quando nos dispomos a questionar o mundo, o homem, suas relações e seus interesses. Quando para uma maioria, por comodismo ou qualquer outra desculpa, todas as injustiças se tornam aceitáveis, estamos novamente no caminho da barbárie.

Publicado em 4 de agosto de 2009 no site Educação Pública vinculado à Secretaria Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro, Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/historia/0082.html

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