sábado, 10 de agosto de 2013

10 de agosto de 1995 - Adeus ao mestre Florestan Fernandes, o pai da sociologia brasileira

Por: Lucyanne Mano


"Comecei a trabalhar aos 6 anos e meu passado me deu fibra e identificação com os oprimidos, os trabalhadores, minha classe de origem". Florestan Fernandes


Seis dias depois de se submeter a uma operação de transplante de fígado, o sociólogo Florestan Fernandes, 75 anos, morreu no início da madrugada no Hospital das Clínicas na capital paulista. Seu corpo foi velado no Salão Nobre da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, de onde partiu para a cremação no cemitério de Vila Alpina, também em São Paulo.

Mais do que o pai da sociologia brasileira, com 56 livros publicados, o intelectual Florestan Fernandes foi um grande educador, não só pelos 24 anos de exercício prestados à atividade na Universidade de São Paulo (USP), como pela capacidade de hipnotizar platéias nas conferências em que defendia as suas teses. Entre elas, Mestre Florestan foi um defensor intransigente da escola pública. Devotou seu trabalho político - filiado à esquerda socialista - a ressaltar a importância do ensino gratuito, de qualidade, acessível a todos os brasileiros como única forma capaz de promover a democracia. Teve também participação decisiva nos primeiros estudos sobre a questão do negro na sociedade de classes brasileira.

Cassado pela ditadura militar em 1969, ele se exilou por três anos nas universidades de Toronto, no Canadá, e Columbia e Yale, nos EUA. 

Mestre Florestan foi um otimista. "Confio no país e acredito no seu desenvolvimento", declarava. Sua vida foi um claro exemplo desta fé. Paulistano, nascido em 22 de julho de 1920, filho de lavadeira, nunca conheceu o pai. Foi engraxate e trabalhou desde os 6 anos para sobreviver. Aos 17 anos matriculou-se num Curso de Madureza, fazendo em três anos o que os mais privilegiados levavam sete. Trilhou caminhos incomuns para desembocar no início dos anos 40, na recém criada Escola de Sociologia e Política da USP. De sua origem, tirou para a vida a inspiração socialista, que não abandonou nem mesmo após a queda do Muro de Berlim (1989). De orientação marxista, montou em seus anos de academia uma invejável biblioteca de mais de 20.000 livros.

Casado com Dona Myrian, teve seis filhos. E para a posteridade, deixou muito mais que livros, um exemplo de coerência e ética, raros nestes tempos de modernidade.


Fonte: Jornal do Brasil CPDOC/Jornal do Brasil. Disponível em: http://jblog.com.br/hojenahistoria.php?itemid=27726

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